Nos 40 anos do Campo Arqueológico de Mértola

Homenagem a Cláudio Torres evocando os 40 anos do arqueólogo em Mértola e de como o interior é possível

TEXTO MIGUEL REGO   In Diário do Alentejo, 5 outubro 2018, p 16-17

Felizmente, a tua escola parece querer libertar-se do estigma de te ter despedido, de te ter ignorado, de ter gozado o não seres o professor institucional, de cátedra, de método escolástico, e homenageia-te”.

Este é o olhar que trago ao papel branco nesta homenagem a ti, “mestre”. Fotograma míope na imensidade do teu tempo e do teu mundo inquieto, um tempo e um mundo imenso, que fizeste vertiginoso, impossível de abarcar com este ou qualquer outro olhar, porque qualquer que seja a perspetiva deste ou de qualquer outro depoimento, não é senão apenas mais um outro episódio nesta tua longa duração, braudeliano termo tão caro na tua relação com os outros.

Este meu dizer é apenas mais um pequeno fragmento de um tempo incompleto de ti, de nós, porque és um espaço coabitado que representas momentos únicos para quem viveu ao teu lado. Para quem está ao teu lado.

Por isso tive dúvidas em dar à luz este texto, a propósito de ti, Cláudio Torres, num tempo que te invejou, que te ignorou, mas que soubeste observar, moldar, conquistar, perdoar com a simplicidade de quem entende a eternidade dos homens.

A abordagem que aqui faço, muito pessoal, será difícil se fugir a uma espécie de discorrer cronológico. E pode essa cronologia ajudar a olhar-te, a olhar o homem, aquele homem, que é ainda o meu modelo do romântico revolucionário na terra ardente alentejana a aprender-se todos os dias. A apreender-se… Será?

Sabes… no princípio era [foi] o verbo… Poderia ser a expressão mais reflexa de uma relação que começou em mim, contigo, sem tu saberes [nem eu, diga-se de passagem], com um pequeno livro capa cor-de-rosa de um historiador chamado Flausino Torres: Portugal uma perspetiva da sua História. Estávamos em 1979 e, enquanto aprendiz de bibliotecário, que improvisava, numa biblioteca, algures às portas de Lisboa, que quase ninguém usava e que se resumia a um armário de madeira com um aroma sempre adocicado, tinha aquele livro como cabeceira. O pequeno livro acompanhou-me bastante tempo até que, pelas mãos do José Carlos Oliveira, que conheci quando praticava restauro de frescos e gessos no Palácio da Rosa, chego às escavações da Mata da Machada, no Barreiro, e conheço-te.

“Beto [filho de deputado eleito por Viseu], o Cláudio é filho do Flausino Torres?” Aquela que, aparentemente, seria apenas uma relação ocasional numa escavação arqueológica à volta de um conjunto de fornos de cerâmica de formas de açúcar e de pesos de rede, torna-se uma experiência essencialmente marcada pelo homem e que, desde o primeiro dia, despoleta uma profunda admiração pessoal.

Admirável então era o teu enciclopedismo, que esgrimias de forma apaixonada a um bando de moços, naquele pinhal tão perto das chaminés do Barreiro que começavam então a apagar-se, mas que se pressentiam pelos odores fortes. Eram deslumbrantes os fins de tarde com as tuas “palestras” irrompendo noite dentro quando não tinhas que ir a Lisboa. Em torno de uma fogueira, ali ficavas connosco falando apaixonadamente. E ali ficávamos, jovens aprendizes de arqueólogos, professores, ou coisa nenhuma, ou operário em Alfragide, como eu era pelas tuas palavras, mas na realidade em Linda-a-Velha, pasmados pela simplicidade das tuas palavras. Estórias intermináveis de lutas, de revoltas, de fugas, de livros… Oiço pela primeira vez, então, a tua tão cinéfila fuga para Marrocos, que me contara antes o Paulo 28, à boca fechada, como se fosse uma história das mil e uma noites.

Ao mesmo tempo que as estórias irrompiam noite fora, a História–disciplina, começava a ter para o nosso frágil saber uma dimensão humana.

O Infante das Descobertas vê- -se substituído pela simplicidade de gente como nós, que fazia pratos de cerâmica que reconhecíamos nos escaparates da nossa avó, de oleiros que faziam as formas do biscoito, as formas do açúcar, os pesos de tear.

Reinventavas gestos que moldavam os cavernames dos barcos feitos em azinho e castanho das terras do Algarve e do Alentejo. Trazias nomes de historiadores que desconhecia como o Borges Coelho, o José Luís de Matos, mais tarde o José Mattoso, que faziam a História que se exigia nos novos tempos que te trouxeram a Lisboa vindo da Roménia.

Invade-me uma sensação de bem-estar no ter de mexer nas imagens e nas memórias deste passado.

Há neste instante uma multiplicidade incalculável de momentos que gostaria de recordar, de contemplar de novo, de contar com o pormenor, a exatidão que esses momentos mereceriam. Alguns são muito nossos e de uma ternura tal que dificilmente alguém compreenderia o sabor e o aroma que me invade com essa recordação.

Às vezes mais deliciosos do que se tivessem acontecido numa relação de filho para pai, onde as barreiras que se levantaram no deambular dos anos não permitem certo tipo de cumplicidades. Mas essas histórias ficam connosco. Humores, olhares, respirares, gestos, atitudes… é delicioso este momento.

Este exato momento em que temos de começar a escrever um depoimento que nos pedem para juntar a tantos outros, seguramente tão cheios de doutas opiniões.

Depois do Barreiro, veio Noudar. Recordo tão bem a vila vazia naquele setembro que trazia o seu primeiro dia. O primeiro ano dos anos Oitenta… tão distante esse tempo e tão vivo.

Sabes… entrei em Barrancos, rua acima, cansado depois de quase 20 quilómetros a pé, desde a Amareleja, sem que passasse um único carro… e entro na vila e não vejo ninguém… Dois ou três velhos encostados a uma cadeira na porta emoldurada pelas paredes brancas de cal. Estava tudo na festa. “Onde fica a Casa dos Médicos – perguntava…”. A resposta antecipava-se à pergunta: “O professô debe tá na Praça!” Os passos tímidos encontraram-na com facilidade, coração de um tempo ritual naquelas terras que desconhecia.

Um encontro que foi durante mais 20 anos um reencontro com o Castelo, as histórias da Reforma Agrária na Coitadinha, o Durão, o contrabando do café, a Guerra Civil espanhola, a senhora Florência, o Manuel Maceiro, as manhãs frias de novembro, onde, naquele canto hoje engolido por um edifício cheio de novas arquiteturas, havia sempre uma cafeteira de esmalte cheia de café para encher um copo grosso de vidro que levávamos à boca, deliciados, quase religiosamente, mastigando uma tosta de torresmos… “Migué… eu cá não digo nada, a minha boca é um chocalho, não é professô?” “E, e, e, e canta lá o Verde, do Lorca…”. “Verde que te quiero verde”.

Como num desfile recordo o Santiago, o Luís, o Mané, a Mifas, a Isabel… Aquelas noites onde as silhuetas de azinheiras se incendiavam no passo lento da Lua.

Depois Mértola chegou naturalmente. Um dia a manhã acorda com a tua voz ao telefone: “E, e, e estás a fazer o quê? Queres vir trabalhar para cá?”

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Cláudio Torres (à esquerda), com António Silva Fernandes (ao centro) e Lucília Faria Silva Fernandes  – ARQUIVO DO CAMPO ARQUEOLÓGICO DE MÉRTOLA

Trago esta fotografia comigo há muito tempo. Talvez desde 1993. Olho insistentemente esses teus gestos com as mãos, esse olhar, esse colocar da cabeça olhando de forma terna o olhar que do outro lado admira a tua voz suave, os teus olhos vivos, sinceros, cúmplices. Há nesta fotografia mil olhares que se cruzam, que dialogam, que constroem uma relação que nem o tempo fará fenecer. Há nesta fotografia algo de eterno que poucos poderão perscrutar, mas que qualquer pessoa Mértola desconhecendo os atores pode adivinhar-se, pode adivinhar-te. O Chola, a Guilhermina, o Jorge, o Miguel, o Teixeira, o Passinhas.

[Quantos anos terá esta foto? Quem a tirou? Recordas-te? Atrás as fotografias das azenhas do Guadiana… De um rio que um projeto, que é o teu, apelidou de Grande Rio do Sul, fruto dessa abordagem etno-antropo-qualquer-coisa… Lembras-te desta expressão?… que trouxeste até Mértola carregando um bando de paraquedistas da Clássica de Lisboa e outros quejandos?…]

Aqui vejo o senhor António da Silva Fernandes e a Dona Lucília… aquela loja, onde havia de tudo, até o Guadiana trazido pelas marés, que nas suas costas calcorreava as encostas das suas margens escarpadas.

Quantas histórias e quantas notícias ouvias da mesma forma como sabias dialogar, contar, criar, fazer História. Então, havia grande admiração por ti, pelo teu trabalho. Depois foram esquecendo a dimensão do projeto de Mértola e de tudo aquilo que ele fez mudar. Em tudo aquilo que fizeste mudar, em espaços vazios de fronteiras, de cátedras, de ideologias. Um projeto que ajudou a descobrir o papel social da Arqueologia e da História; que criou novas abordagens e novos discursos na museologia; que trouxe novos atores para a nossa História de Portugal…

Um projeto que trouxe cada vez mais visitantes a uma vila que fenecia… Não serão todas as gentes de Mértola que revejo na profunda ingratidão que sinto. Mas são, acima de tudo, alguns diseurs petulantes ligados aos poderes locais dos últimos anos e que têm sido profundamente insensíveis a um projeto que teve uma importância extraordinária no último quarto do século 20. Numa terra onde o rio, enquanto via comercial, tinha morrido; numa terra onde a Mina de S. Domingos sangrava na ruína; numa terra onde as terras magras de trigos pobres não davam sustento; numa terra onde o contrabando já não trazia pesetas para matar a fome; numa terra escarnada pela emigração… esqueceram-se que a par do papel da Câmara na dignificação daquelas terras perdidas num interior de coisa nenhuma, o projeto do Cláudio Torres recuperou o nome de Mértola para um imenso exterior.

Mas esse reconhecimento também te foi roubado na Universidade. Falo, aliás, de um concelho e de uma instituição que no tempo certo não estiveram do teu lado. Em tempos diferentes não te entenderam. Felizmente, a tua escola parece querer libertar-se do estigma de te ter despedido, de te ter ignorado, de ter gozado o não seres o professor institucional, de cátedra, de método escolástico, e homenageia-te.

Cláudio, aos nossos pés a ribeira de Oeiras continua a correr e ali estamos, empoleirados, nas paredes do pátio do Dispensário, vendo os guarda-rios a mergulhar. Um atrás do outro. Às vezes vemos o que parecem duas lontras deslizando tão suavemente quanto aquele vento fresco de abril, subindo e descendo cerros à volta de S. Miguel pensando encontrar o Monte Agudo naqueles cabeços onde cada pedra parece ter uma história para contar.

Quarenta anos passaram. Daqui a pouco, comemos um arroz branco e um bocado de carne entre dois copos de vinho tinto. Levantas-te, depenicas um pouco de pão e, por abaixo da umbreira, esticas o dedo. Uma osga desce e recolhe o banquete que repetidamente lhe ofereces. Obrigado