Os museus são coisas demasiado sérias para serem levados a sério!

Um dos sintomas da decadência dos museus portuguese é a atroz impossibilidade de neles se manifestar o Riso.

Ao entrarmos num museu, raros são os sorrisos que vemos nos seus visitantes. Não há espaço para nos rirmos. Os objetos plasmados nos seus plintos não suscitam qualquer riso. Quando saímos dos museus não sentimos qualquer felicidade, embora os “inquéritos à satisfação dos visitantes” [1]sejam uma das ferramentas atuais do que se podemos chamar o “marketing cultural”, eles nunca perguntam se ficamos felizes. É certo que perguntam, numa escala de 1 a 5 se gostamos, de vamos voltar, se recomendamos a um amigo. Mas a felicidade é uma ausência. Nunca pergunta se rimos, se estamos felizes, embora a felicidade seja um critério de satisfação.

Tão pouco, na atual busca da comunidade do ICOM, por uma novo conceito de museu (https://icofom.mini.icom.museum/zoom-meeting-with-co-chairs-of-icom-define/), verificamos a mobilização da busca pela dimensão da felicidade e do riso no museu. Poderemos então verificar uma correspondência entre esta ausência de substantivos ou adjetivos diretamente relacionados com árvore generativa do riso (e da felicidade) e as práticas da chamada museologia (tradicional ou dos objetos).

O que procuro demonstrar, em tese, é se nos museus pudéssemos ser felizes, ou ficar mais felizes, estaríamos mais próximos dum museu integral[2]. Dum museu que alcança um desígnio de relevância para a sociedade, para além da mara recoleção de objetos de memórias hegemónicas. E há vários exemplos dessas experiencias.

No filme de Jean Luc-Godard “Band à Part” (1964) os protagonistas Anna Karina, Samy Frey et Claude Brasseur, tentam bater o record da visita mais rápida ao Louvre. (https://youtu.be/J9i771qYngY). Essa experiencia que é uma pratica de felicidade e bem-estar, alertava, nos contestatários anos sessenta do século passado, sobrea necessidade de abrir os museus ao mundo. “Deixem o Sena atravessar o Louvre” escreveram os rebeldes soixante-huitard nas paredes do Museu. Era então um sinal de mudança, que Santiago procurou interpretar.

Já lá vão alguns anos, num encontro que houve no Museu dos Coches onde fiz algumas reflexões sobre as propostas de trabalho em museologia e lancei alguns desafios aos museus em Portugal: Com o título “uma museologia que não serve para a vida não serve para nada”[3], como é costume nesta nossa terra, este tipo de ideias são alvo da troça da “gerontocracia ” iluminada e esquecida nos caixotes de lixo dos seminários construídos para efeitos estatísticos e gestão de carreiras.

A ideia estrutural desse trabalho partiu duma leitura (ou busca) da necessidade de adequar os processos museológicos aos tempos da cidade. Isto porque, na altura tive a perceção de que os Museus, enquanto lugares onde se concretizavam processos de patrimoniais de memória, estavam, como ainda permanecem, cada vez mais desfasados dos ritmos e dos sentidos do mundo. Os museus, em Portugal, são cada vez mais lugares de outros tempos com narrativas onde a monovocalidade analógica emerge como formas cada vez mais assustadoras na sua configuração de produção de dislates..

Para quem tenha a paciência de observar que nos museus não há risos nem tão pouco sorrisos, isso é visível a olho nu. A estes tempos pós-pandemia são disso exemplo. Enquanto assistimos na cidade  à enorme felicidade por esse reencontro com a vida e como os outros, agora que a Pandemia se apresenta controlada, os museus prosseguem com o “seu negócio habitual” de vender programas culturais doutro tempo, estéreis e sem que se possa sentir o pulsar da vida.  

Apesar de tudo, há propostas da museologia social para valorizar o riso. Para trabalhar com a felicidade. As propostas de Pierre Mayrand, neste nosso país, e à alguns anos que falo disso, são disso um exemplo, embora como de costume as coisas tenham passado despercebidas nestas museologias que, por questões de moda, se afirmam criticas[4]. O debate é mesmo mais denso do que à primeira vista poderá parecer, radicando nos debates renascentistas, como noutra altura falaremos.

Mas vamos à ausência do Riso nos museus da cidade.

Regressado duma experiencia em Barcelona, verifiquei com espanto que essa a cidade fervilhava de jovens que riam nas ruas. Parte deles juntavam-se nos museus do “barrio chino”, ocupavam livrarias, tocavam ao ar livre e exaltavam aquilo que os fazia felizes: -Viver a vida! Foi uma experiencia de felicidade “caminant pels carrers recordant a Francisco Ferrer, l’educador afusellat després del tumult de la tràgica setmana de 1909[5].

Na nossa capital Lisboeta, confrontei-me com a cidade sem riso, ansiosa, sem juventude. Livrarias encerradas, sem gente. Centros culturais e bibliotecas sem vida. É certo que a população envelheceu. É certo que os jovens conterrâneos tem apetência pelas zonas ribeirinhas onde o acesso às cervejas é fácil e descontrolado. É certo que as escolas recomeçaram, e como isso a necessária ocupação diária. Mas ainda assim… o que justifica a ausência do riso nas propostas da cidade? E nos seus museus?

Há algumas hipóteses que valem a pena pensar como exercício crítico. Um delas é o do “envelhecimento” dos museus. Todas as organizações sociais tem um ciclo de vida. Uma juventude, irreverente e criativa; uma maturidade quando os seus serviços que se alargam à sociedade, e um definhamento, quando os seus serviços deixam de se ajustar aos ritmos e necessidades da cidade.

As organizações sociais, enquanto corpos vivos, estão sujeitas as leis da natureza e necessitam de mostrar a sua relevância social. SE não mostrarm o sua valor à sociedade, deixam de ser relevantes. Definam e a sociedade deixa de contar com elas. São substituídas por outras formas de organização.

É certo que há sempre a possibilidade de adaptação e de regeneração das organizações sociais. Se os museus estão envelhecidos poderão, eventualmente, reinventar-se, recriar-se. Poderão tomar novas formas e novas qualidades, como se pretende com isso nova busca conceitual.

Isto é claro, se esta questão, do seu valor social, for um problema, como efetivamente penso que é seja, embora muitos assim não o entendam.

Para simplificarmos, poderemos pensar que este sintoma de falta de adaptação, esta espécie de darwinismo social, aplicado à análise das funções dos museus, não é mais do que a entropia que teoria geral dos sistemas nos mostra. Um qualquer sistema está permanentemente em produção de sinergias e entropias. Servirá essa teoria para os museus?

Se sim , um museu, ou os museus em Portugal, enquanto organizações sociais, observados a partir da teoria geral dos sistemas, como conjunto de unidades interligadas que executam um conjunto de funções relevantes para a sociedade, em que situação se encontram?

Se procurarmos observar o modo como se relacionam com sociedade, poderemos observar as suas hemóstases e as suas entropias. A chave de entender o equilíbrio do sistema é a hemóstase. Mas quando se analisam os sistemas procuram-se essencialmente as suas entropias. Isto é a força que concorrem para a sua deterioração.

E aqui nos levam à constatação, que decorre da observação pós-pandémica, de que a impossibilidade e a ausência do Riso nos museus portugueses é um sinal da sua entropia. Do seu envelhecimento. Da sua decadência como já aqui alvitrei. Uma solução para o problema seria pois deixar entrar o Riso nos museus portugueses. Se ou souberem fazer …


[1] http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/museus-e-monumentos/dgpc/estudos-de-publicos/

[2] Nos termos da Declaração de Santiago do Chile, nos idos de 1972, que no próximoa ano celebrá meio seculo de existência.

[3] https://www.researchgate.net/publication/320235370_Uma_Museologia_que_nao_serve_para_a_vida_nao_serve_para_nada

[4] https://www.academia.edu/4525781/Oficina_do_Riso

[5] https://museueducacaodiversidade.com/2019/08/14/francisco-ferrer-1859-1909-a-formacao-libertaria-integral/

Publicado por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural Museu Afro Digital - Portugal. Museu da Autonomia.

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