O que é que então acontece quando estamos no museu?

A questão do passado e das suas representações foi, durante todo o século XIX e XX, como um importante instrumento modelador da sociedade. Sabemos que a modernidade, no sentido da rutura com o passado influenciou bastante a vida nas cidades e a economia. A modernidade, no sentido da industrialização, primeiro e depois os serviços, valoriza a inovação, o diferente. Havia mesmo que que defendesse que o passado já não importava, que não servia para nada. Contra estes, levantavam-se os tradicionalistas, os defensores da conservação dos costumes e dos objetos. E já que não se podia conservar tudo, conservava-se, pelo menos o essencial.

Há inúmeros exemplos nas várias discussões disciplinares entre tradição e modernidade. Talvez essa discussão tenha sido um fator de equilíbrio entre os elementos de mudança e transformação sobre as estruturas pré-existentes. Um facilitador da acomodação.

Mas neste nosso caso, o que nos interessa interrogar é o que acontece no museu. Isto é se deve ser um templo do passado ou um laboratório do futuro. Onde se situa a função do museu nessa discussão entre a tradição e a modernidade.

Olhemos para o museu. Um museu apresenta uma narrativa sobre um assunto. Uma história contada pelos objetos colocados em vitrinas, rotulados com etiquetas com informação sobre a autoria, o ano de criação, o material e a técnica usada. O que é que significa a história num museu?

Encontramos normalmente dois tipos de propostas nos museus do nosso tempo:

Os museus clássicos, apresentam uma narrativa, construída por um curador, apoiada em objetos apresentados segundo uma ordem, cronológica, por afinidade de categoria ou por estética. São museus que partem dos objetos que tem disponíveis, eu por alguma razão foram incluídos no seu acervo e que através deles procuram captar a atenção dos visitantes.

Já no caso dos museus participados (museus socias, ecomuseus, museus de comunidade, museus locais) verificamos que são museus que trabalham sobre questões objetos que interrogam o mundo onde se inserem.

São museu que defendem a necessidade de assumir uma função social. De servir e estar ao serviço da sociedade. Os seus objetivos e valores fundamentais não estão direcionados para os objetos, que apenas se constituem como um meio para atingir os fins; mas nos valores da comunidade de que é protagonistas. Nestes museus a preocupação do curador é responder ao pulsar do mundo, a vida vivida e às escolhas do presente através dos recursos disponíveis.

A construção da narrativa é feita em colaboração com a comunidade que participa na escolha dos objetos que decide guardar e conservar. São espaços inclusivos que procuram o que é que a comunidade quer aprender. São espaços de interrogação.

Para fazer este tipo de museus é necessário abrir as portas. Sair para o espaço envolvente e procurar o que é relevante. Saber o que as pessoas querem como representação da sua memória e propor que essas pessoas usem o espaço do museu para criarem atividades relacionadas com os seus patrimónios. São museus que procuram respostas para o pulsar do mundo. São lugares de encontro e descoberta de novos objetos para musealizar. Procuram compreender o território e a cidade como espaço de cidadania. São promotores a ação na comunidade.

A curadoria participativa não é um trabalho fácil. A memória é um campo de confronto social. Em qualquer comunidade há diferentes memórias em disputa. Como espaço de encontro, o museu é uma oportunidade para reconhecer a diversidade e promover a inclusão do outro e da diferença.

Publicado por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural Museu Afro Digital - Portugal.

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