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Programação Cultural IV: Entre festas ou alta cultura?

De onde vieram os profissionais da programação cultural nos anos 90 e em que escolas foram formados foi a interrogação que deixamos no último postal.

Ao olharmos para o perfil da formação dos atuais programadores culturais, por exemplo no Politécnico de Leiria (https://www.ipleiria.pt/cursos/course/licenciatura-em-programacao-e-producao-cultural/), podemos observar que se trata uma formação multidisciplinar, eclética com uma extensa prática, seja em estágio, seja em laboratório. Multidisciplinar porque envolve as áreas da economia, do património, do urbanismo, das artes, da educação, da ciência política e direito, e comunicação. Prática porque envolve o desenvolvimento de laboratórios experimentais, oficinas de mediação, curadoria e exposições.

No passado uma boa parte das pessoas que chegaram à programação cultural vieram do campo dos Estudos Culturais, da Animação cultural, e de uma forma geral da intervenção cultural na sociedade. Com as políticas públicas da cultura, seja ao nível do Estado Central seja ao nível municipal, estres profissionais passaram a ter acesso, por exemplo a financiamentos públicos, o que obriga a conhecer as ferramentas de elaboração e gestão de projetos.

Embora não exista, em Portugal um Plano Nacional de Cultura, existe no campo dos financiamentos comunitários um Programa Operacional para a Cultura, onde se alocam cerca de 350 milhões de Euros (250 milhões como contribuição comunitária). Um valor que implica negociação, conhecimento de legislação e capacidade de desenvolver projetos. Vaz portanto algum sentido a oferta formativa.

Mas regressando à questão das origens dos primeiros profissionais, vale a pena pensar nas escolas que se formaram e nas tradições que deram origem. Já em outros postais abordamos alguma experiencias que surgiram após 1974 até a institucionalização da profissão, que situamos na marca simbólica da Expo 98. Este foi uma data chave para entender o processo de internacionalização de uma geração de profissionais, que ultrapassaram as experiencias domésticas e iniciaram diálogos com outras realidades na Europa e no Mundo (em especial com Africa).

Alguns movimentos, como por exemplo o Movimento Alfa, em 1975 levou, com apoio do Inatel a criação de vários monitores de alfabetização, animação cultural e animação desportiva. Alguns desses monitores acabaram por continuar a praticar a “dinamização cultural” como então se chamava essa atividade. Um caso paradigmático será a experiencia levada a cabo no Algarve, com a associação InLoco, que durante vários meses desenvolveu um projeto de “desenvolvimento rural” com base na busca dos recursos culturais endógenos. Foi então oferecido um programa de formação de animadores socio-culturais. Com o final do projeto, muitos desses profissionais ingressar 9nos quadros das autarquias da região, já na época com um forte desenvolvimento turístico. O turismo, e em particular a chamada “animação turística” será uma atividade que permitirá o desenvolvimento de vários profissionais da cultura, não apenas de músicos e atores, mas também destes programadores para organização dos “eventos”.

Um caso que também vale a pena referir é o do centro cultural da  “Mala Posta” (https://malaposta.pt/). Nos anos nov9enta, várias autarquias da região de Lisboa, (Amadora, Loures, Vila Franca de Xira e mais tarde Odivelas), reúnem-se neste centro cultural, que se instala numa antigo armazém dos correios na periferia de Lisboa, e desenvolvem um interessante projetos de intervenção cultural, in situo e nos vários municípios, através de equipas de monitores. A formação destes monitores, irá alimentar o desenvolvimento das necessidades de profissionais para festa, eventos e atividades culturais, que a crescente intervenção municipal vai suscitar nos anos 90.

Quando se concretiza a Expo 98, que desenvolve um programa cultural de animação, já existem vários profissionais, que a partir dessa data, alguns deles se internacionalizam, outros que aceitam novos desafios em diferentes zonas do país.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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