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Diversidade Cultural

Programação Cultural III: Entre festas ou alta cultura?

No último postal desta série “Programação Cultural” distinguimos, na evolução da profissionalização desta profissão, as suas origens eruditas e populares. Avançamos com a ideia que ao longo dos últimos anos do século XX, a profissão “consolida-se” e “democratiza-se”. Consolida-se porque se começa a autonomizar, e democratiza-se porque ultrapassa as suas limitações de profissão exclusiva de instituições de “alta-cultura”. Torna-se uma profissão que se vai alargar e consolidar na concretização de eventos, festivais e mesmo em instituições culturais de base.

A programação popular tende, numa primeira fase de consolidação a ser sobretudo uma programação de eventos festivos, de entretenimento e animação, que se concretizam através de festas populares, feiras, romarias ou festivais. Estas celebrações, em meados dos anos 90, com as construções de redes de equipamentos culturais dos municípios, e o surgimento de políticas culturais municipais começam a “profissionalizar-se”.

Estamos de novo numa outra distinção difícil de precisar e que cada vez mais fará menos sentido. A distinção entre erudito e popular foi absorvida pela questão dos públicos. Tudo é público, independentemente do valor cultural do programa.

No caso Português vale a pena entender como se democratizou a “programação cultural”. A “Festa do Avante” e o caso de Ruben de Carvalho  talvez sejam um bom exemplo para entender algumas questões de democratização do acesso à cultura, e que tem sido pouco referenciadas.

Organizada coletivamente pelo PCP, a Festa do Avante realiza-se interruptamente desde 1974. O então dirigente Ruben de Carvalho (1944-2019) será uma personalidade que se destacará na programação cultural desta festa, que sendo essencialmente política, encontrou no seu programa cultural uma forma muito peculiar de criar e alargar os seus públicos. Nos anos iniciais da democracia havia até uma linha de divisão entre municípios que “investiam” em cultura e apoiavam atividades culturais (quase todos de esquerda, com então os de cor comunista a predominarem) e os que nela não investiam, (nessa altura mais a norte e sobretudo de direita). Das experiencias de organização das festa do avante (e na época da experiencia recolhida pelas digressões da Banda “os Trovante” foram surgindo vários festivais, (por exemplo o Sol da Caparica, Musicas do Mundo em Sines, etc.) que foram primeiras experiencias de profissionalização de “produtoras culturais”, talvez ainda sem essa classificação.

O sucesso destas políticas culturais nas autarquias e a entrada de Portugal na CEE, vão levar a uma universalização dos “investimentos” na cultura. Esbatem-se as distinções entre direita e esquerda por um lado e surgem as primeiras empresas culturais, que se dedicam a produzir e a programar os eventos culturais para municípios ou empresas.

Um outro caso também muito pouco estudado em Portugal, e que servirá de modelo e escola de formação para programadores culturais serão as “Festas de Lisboa”. A página da CML (Cultura na Rua) oblitera uma parte substancial dessa história. (https://www.culturanarua.pt/historico/).

No início dos anos 90 a Câmara de Lisboa é governada por uma original coligação socialista com os comunistas, depois de 10 anos de uma presidência do centrista Kruz Abecassis. Tendo como presidente Jorge Sampaio, é vereador da cultura João Soares, que mais tarde lhe sucederá na presidência. Devido ao acidente de avião que havia sofrido em Angola, Soares ficará vários meses afastado do executivo, que é assumido pelo presidente Sampaio. Será seu braço direito, durante esse período, Miguel Portas. Será com Porta que as “Festas de Lisboa” ganharão espaço na cidade, ultrapassando a sua condição de sardinhada e desfile de marchas, para assumir uma programação cultural, tomando conta da rua. A ideia chave então era “A festa tomar conta da cidade”.

Nos seus vários anos, foram organizados espaço de concertos, com programação musical nas várias praças da cidade. Ao sabor das modas de então, o município cria uma empresa municipal (A EGAC) para desenvolver estas atividades culturais. Nesses primeiros anos, a atividade de programação era desenvolvida por equipas contratadas por seis meses, iniciando-se os trabalhos de preparação em janeiro, e dissolvendo-se em julho, após o encerramento das festas. Faziam-se os programas através da seleção de músicos e bandas, organizavam-se os recintos de rua, montando palcos, som e iluminação, faziam-se “press release” sobre a festa, antes e durante. Finalmente havia que fazer o controlo da qualidade dos espetáculos.

Como resultado desse trabalho foi-se criando uma “máquina” de eventos, bem oleada, que a câmara ia usando nas suas várias atividades culturais, desportivas e eventos. Naturalmente que a empresa tinha uma atividade regular na cidade ao longo do ano. As festas de Lisboa eram um “evento” extraordinário que implicava o recrutamento temporário de profissionais, que durante o resto do tempo iam oferecendo os seus serviços a outros clientes.

De onde vinham estes novos profissionais?

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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