Categorias
Cidade Mundo Diversidade Cultural

Pelas terras da Beira (sinais de Viriato e dos Lusitanos)

Fazia alguns anos que andava para rever Idanha-a-Velha. Talvez há mais de 30 anos que por lá não passava, incluindo as terras raianas de Monsanto. Nos idos de 90 lembro-me de ter assistido à criação do Projeto Aldeias Históricas de Portugal, de que Idanha fazia parte, juntamente com Monsanto e Sortelha.

Sortelha era na altura uma vila encastelada, pobre e arruinada, com inúmeras casas à venda. Ao contrário de Monsanto, que tinha sido galardoada com o título da “Aldeia Mais Portuguesa de Portugal”, no célebre concurso engendrado em 1938 por António Ferro e o sei Secretariado Nacional de Propaganda. Ser segundo fez toda a diferença, levando para a concorrente os fluxos turísticos, então ainda frágeis, mas que permitiram alimentar um economia de serviços, valorizar o imobiliário, restauração e artesanato e até permitiu o desenvolvimento da cultura local, das cantadeiras de adufe a alguma pesquisa sobre o cancioneiro da Beira Baixa.

Regressando às terras de Idanha-a-Velha, alvo de relevantes obras de requalificação da muralha pela DGPC, em tempos de pós-Covid, assemelhou-se a uma visita a uma aldeia fantasma. Alguns habitantes locais em redor da amoreira centenária. Uma loja de artesanato, gerida pelo dono do café, vende roteiros, mel e vinhos locais. O mais surpreende é o imenso palácio Marrocos, implantado no meio da aldeia, em espaço sobranceiro, às ruinas do antigo paço episcopal. Um exemplo de que as megalomanias são intemporais. Tal como o centro de interpretação numa aldeia com 69 habitantes, que vivem do fulgor cultural do passado.

E sobre os Lusitanos. É naturalmente pouco provável que Viriato por ali tenha passado. A aldeia-vila romana, situada na rota entre Mérida e a Guarda. Mas em Monsanto a imagética do guerreiro rebelde que enfrentou os romanos está bem presente.

Viriato e os Lusitanos constituem um poderoso símbolo identitário. Mítico em grande parte, idolatrado como figura fundadora duma proto-nacionalidade. A sua rebeldia contra os romanos será provavelmente a razão da sua menor expressão no panteão nacional. O Estado Novo não terá visto com bons olhos a celebração dum herói guerrilheiro, cuja memória radica na revolta contra a ordem romana. No panteão nacional, celebraram-se sobretudo as gesta dos navegadores que “por mares nunca antes navegados, novos mundos deram ao mundo”.

Ainda assim, como herói menor, foi celebrado no século XIX, como chefe que foi dessa tribo dos lusitanos. E Lusitanos, é o povo redescoberto no renascimento, que Camões canta da sua monumental obra épica. Canta a sua rebeldia contra a civilização romana, cuja influencia, tendo acaba por vingar na língua e na civilização, lhe adiciona o ímpeto insurrecional, criativo, irrequieto, que fará dos portuguese um dos filhos do lácio.

Caída Roma, a sua influência multiplicou-se através dessas recriações. O curioso destas tensões é saber como celebrar essa excentricidade. Ante dos romanos ou como resultado dos romanos, quando se recria uma nova nação, que muitos ainda pensam como destinada a uma qualquer redenção.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.