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Museus dum outro tempo

O grupo de projeto Museus no Futuro, apressadamente concluiu o seu relatório preliminar. Nomeados pela RCM 35/2019 de 18 de Fevereiro, no âmbito das guerras internas dento do Ministério da Cultura, onde os vários atores que se estão a posicionar para o banquete dos fundos europeus, produziram um documento deplorável, do ponto de vista técnico e teórico.

Mostra bem o nível de alienação da museologia portuguesa. Falta lhe o sentido da realidade. Do país, das políticas públicas para a cultura. Falta lhe também conhecimento relevante sobre as dinâmicas da museologia, os seus desafios teórico, e capacidade e análise critica sobre os modelos das organizações sociais.

Terá provavelmente como destino as bolorentas gavetas da Ajuda. Mais um objeto inútil! Que os historiadores encontrarão numas memórias perdidas numa banheira!

Falta lhe sentido do real porque o que são hoje os museus (e o que serão amanhã os museus do futuro) dependerá, entre outras de duas variáveis de curto prazo, que aqui estão ausentes de reflexão. O comportamento da pandemia e o jogo de forças na negociação do próximo programa quadro de apoio comunitário (2021-2026).

Provavelmente a “encomenda” terá sido para habilitar os “decisores” para programa exequível e para os museus, palácio e monumentos, (MPM). Um programa que será negociado em Bruxelas que gerará um bolo a partilhar internamente pelo aparelho de estado nas políticas socialistas. Estes nossos confrades foram ao seu caixote de ideias não concretizadas e, mudando uma vírgula, modernizando uma palavra, requentaram o prato.

Como tem sido norma na governação socialista, o Estado assume a sua vocação centralista e concentra os “incentivos” a distribuir pela clientela, no jogo de negociação. Quem controlar o “bolo” ganha poder de hegemonia no “mundo dos museus”. A vocação centralizadora deste documento, – de tornar os museus todos iguais, duma memória elitista, não deixa grandes margens para dúvidas. Este documento propõe a criação dum “elefante branco” na Ajuda para controlar os Museus, com estes nossos amigos a espreitarem a sua oportunidade de o “gerir”. Como é óbvio as atuais políticas públicas na área da cultura, mesmo as formuladas pela atual gestão socialista, já não comportam este modelo. A palavra de ordem, com o novo diretor é “fazer negócio”, ou dito por palavras mais atuais, rentabilizar o património.

A Pandemia desencadeada pelo COVID 19, ainda longe do fim e dum conhecimento das suas sequelas, acrescentou a incerteza do futuro. Não haverá, provavelmente, o mesmo tipo de fluxos turísticos. E face a incerteza, os iluminados tiraram da cartola as receitas do passado, de melhorar as relações com os fundos turísticos. Como se fez em Lisboa, debaixo da tutela da EGEAC. Só isso basta para ver que não tem futuro. Nem o modelo lisboeta é replicável no país, nem o país é todo turismo, como é óbvio para alguém que conheça a realidade. E isso se os fluxos turístico voltarem com a mesma dinâmica e intensidade (coisa que também não é óbvia.

Mas há mais exemplos: Dizem que fizeram uma revisão de literatura: Então onde esta a Recomendação da UNESCO de 2015. O estado português não e signatário? Não se comprometeu com o documento. Assinou distraído a recomendação? E quem tem interesse em esconder a discussão que está a acontecer no “mundo dos museus” sobre a ideia do museu e sobre o que é o museu. Não a compreendem é o que é. E como a avestruz, escondem a cabeça debaixo das palavras redondas e vazias.

Outra chapelada. Onde esta a cooperação no âmbito do Ibermuseus. É certo que aparece uma referência sobre a cooperação na formação. Mas não existe no documento uma visão estratégica sobre uma linha da política externa da cultura com um relevante a área regional de grande dinamismo na museologia contemporânea. Acresce que temos com esta área, não só laços históricos, como relevantes comunidades de emigrantes, para quem a cultura portuguesa continua a ser uma ideia da aldeia branca a cantar o Verde-gaio e a dançar fandango. Ausência de ideias portanto! Onde está a cooperação com África. O MNE/CAMÕES não fazia parte do grupo? Não deu contributos? Não tem uma rede no mundo?

Procura caracterizar aquilo que é os museus, palácio e monumentos. Uma categoria que aqui tem como propósito a alargar a influência do antigo Instituto dos Museus a outros equipamentos culturais, muitos deles na dependência das autarquias ou serviços da administração descentralizada. Em contra corrente da visão administrativa da repartição dos fundos comunitários. Pois para quem sabe da poda, os projetos para terem bonificações tem que ser fora da Região de Lisboa e Porto. Claro que a ideia é centralizar em Lisboa os serviços especializados, para manter a influência e a hegemonia.

Na comissão estava a representação da Ciência com os seus Museus Ciência Viva. Não deixa de ser curioso que os inquéritos deixaram escapar a rede de Ciência Viva. Aqui a ciência é vista como uma financiador, um fornecedor de recursos (financeiros e humanos). Não devem conhecer a transformação que as universidades estão a enfrentar. Mas, avançando, por que razão os parques naturais e Ambientais estão ausentes? Talvez fosse útil ligar as categorias do Ministério da Cultura com as do Ministério do Ambiente!

Voltando às categorias e caracterização dos equipamentos (os MPM). O que se apresenta são, mais uma vez dados estatísticos. Entradas nos equipamentos, receitas, públicos. Uma boa parte deles estão disponíveis nas Estatísticas da cultura. Fazem uma leitura simples dos dados, sem um aprofundamento crítico e qualitativo. É certo que foram feita algumas entrevistas com os diretores de museus. (cujos lugares estão agora a concurso). Tudo sobre passado. Nada disso abre uma porta sobre o que será o futuro. E para quem conhece o universo, salta à vista que á lacunas muito significativas. Do alto da Ajuda e difícil observar o país como realidade.

Porquê? Porque falta conhecimento e experiência relevante! Confunde-se a organização social com as políticas públicas. Resultado não bate a bota com a perdigota! Quando se fala de dinâmica social, propõe-se organização burocrática. Tenta-se capturar o real e enxerta-lo numa visão redutora da administração pública e de políticas que não tem aderência com a realidade. Mais uma vez, em vez de se escutar o pulsar do mundo, propõe-se visões de dominação e hegemonia dirigida centralmente pelos atores eleitos. Os iluminados. A aristocracia da Ajuda!

Ora se está em curso uma política de descentralização administrativa dos museus do estado, faz algum sentido propor agora medidas centralizadoras. Subordinar os museus municipais ao abraço do mostrengo. É certo que haverá muito emprego para justificar em Lisboa e cargos de chefia e mordomias. Mas não será difícil prever a ineficácia das medidas imperiais propostas e as revoltas municipais perante o abafo da criatividade e inovação.

Se a Lei dos Museus e a Rede de Museus não funciona, como nunca funcionou, faz algum sentido, 20 anos depois insistir na asneira. Sobretudo quando num contexto e completamente diferente?

Se a Lei dos museus foi o corolário das política centralizadores implantadas por Carrilho, nos idos de 90, é certo que aprovada por larga maioria parlamentar, os tempos dessas políticas já não subsistem na Europa (e estão em Recessão na América do Sul onde foram implementadas, seguindo algumas orientações da UNESCO, entretanto transformadas). Portanto a proposta carece duma ideia de Política cultural que seja “sustentável”. É certo que a UNESCO nas últimas décadas se “afundou” em detrimento do PNUD e das políticas do “Banco Mundial”. Mas ainda assim tem produzido linhas guia que aqui estão ausentes.

O curioso é que até tinham como modelo o Plano Nacional das Artes, que acaba por ser um modelo que se tem mostrado dinâmico e adequado, e na equipa uma das pessoas que o ajudou a elaborar, nesta proposta nada transparece a não ser uma cópia apressada de medidas. A miopia é muito forte.

Por exemplo: Depois duma extensa análise sobre as variações demográficas, que nos bem conhecemos, conclui-se que a população jovem vai decrescer e a população migrante aumentar. Portanto vai diminuir a função educativa dos museus para a escolas. Sé estes iluminados para continuar a pensar a educação nos museus e um complemento da educação escolar. Pelo meio dizem que e necessário “projetos piloto” para públicos “sub-representados”. Uma excelente boutard sobre a Diversidade Cultural como se dizia antigamente.

Cá estou à espera de ver uma exposição sobre o contributo dos ciganos para os descobrimentos portugueses. Com alguma engenharia ainda se descobrirá a excelência dos ferreiros nómadas na elaboração dos canhões com que o Albuquerque ceifou as hostes do Sultão de Omã durante um par de anos, antes das naus se afundarem ou atolarem nos baixios do Índico. E não faltarão aqueles que sairão a terreiro vociferar contra as forjas que moldaram o ferro das grilhetas com que escravizaram os africanos.

Um outro elemento obre a ignorância desta gente é quando se fala da Sustentabilidade. Tem direito a capítulo próprio. No seu primeiro parágrafo a interrogação é delirante. “Como estamos a assistir a uma forma diferente de gerir recursos naturais, que implicações terá no crescimento do nº de museus?”. Claro que o passado mostra um crescimento constante do nº de museus no mundo. Mais uma fez a confusão entre a organização e o processo a conduzir a um discurso delirante e vazio de sentido, enxertado com umas “guide lines” dos vários comités do ICOM para mostrar sabedoria.

Ora uma dos desafios essenciais do futuro, e talvez fosse relevante este relatório começar por aí, seria interrogar qual é o papel da cultura nesse desenvolvimento sustentável. Saber o lugar da cultura na relação com a economia, o ambiente e a sociedade. Será a partir da resposta a essa questão que poderia desenvolver um modelo de política cultural para os museus. Uma política museológica e não a “visão museológica do eixo Ajuda/Berna.

Se isso fosse feito, verificar-se-ia que há um fator de transformação que atravessa toda a questão que é a transição tecnológica. Neste relatório isso não passa duma mera “compra de computadores” duma presença digital (dita pagina WEB). Ainda não perceberam, coitados, que o computador já não serve para nada a não ser para imprimir os bilhetes, ou para alimentar o tal monstro que gere o inventário. É confrangedor meus amigos!

Talvez a ministra tenha lucidez para agradecer e arrumar o assunto, ou que algum assessor mais perspicaz lhe sugira isso, quem sabe!

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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