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O anjo Caído e as lições da história para um património decolonial

Num postal colocado na lista Museum o nosso colega Pedro Cardoso Pereira alerta para o processo de relevância no património.

A sua tese, com a qual estamos de acordo, tem por base a ideia de que atualmente, aquilo a que chamamos Património (que na verdade é já pela sua complexidade patrimónios) sofreu uma mudança de paradigma. Como tal, argumenta, aquilo a que chamamos Património (s) perdeu relevância. A questão de estrutura de relevância no património é um dos contributos deste nosso colega para os Estudos do Património. Vale a pena ler e conhecer esses seus contributos, mas não é isso que nos chamou a atenção.

A questão que aqui nos interessa é a mudança de paradigma. A questão o paradigma é outra questão complexa que desde Tomás Khun afeta a filosofia da Ciência. Ou seja, os seus argumentos são  que face à transformação do paradigma, a estrutura de relevância (o complexo de valores socialmente construídos) também se transformam. Quer isso dizer que um determinado tempo histórico tem um conjunto de características (valores sociais) que podemos observar através dos respetivos patrimónios, ou conjunto de objetos sociais relevantes que nos foram legados.

Vele então a pena discutir a questão sobre o que fazer aos objetos legados, que num determinado processo de transição deixam de ter a tal relevância social que lhe foi atribuída e se tornam objetos contestados. Perderam relevância simbólica, política, de legitimidade e necessitam ser substituídos. Como se faz esse descarte? Será necessário fazê-lo? Quem decido e como decide fazer o quê?

Caberá essa decisão aos políticos ou aos técnicos formados no anterior paradigma, ou ainda à sociedade no seu conjunto.  

Em termos metafóricos é essa a IX tese de Walter Benjamim sobre a Filosofia da História, onde analisa o Anjo da História- o “angelus novus”. O tempo, o progresso, o desenvolvimento, a civilização, inevitavelmente transforma em ruínas o passado.  

A voragem da destruição é inevitável. Os vencedores destroem os vencidos, reduzindo-os ao silenciamento. O problema é que como Walter Benjamim observou no seu tempo (o da ascensão do nazismo na Alemanha) é perceber que “que constitui o horror àqueles que contemplam o cortejo triunfal dos vencedores, aqueles que humilham os corpos dos vencidos, (como metáfora da sua vitória) é que eles não entendem que essa humilhação é ao mesmo tempo a negação do seu triunfo e da sua civilização

Ora se bem entendo as teses de Benjamim (com todo o messianismo que incorporam), será necessário superar esse ciclo de destruição e violência por um ciclo de compreensão a criatividade. A superação do colonialismo (do pensamento) do racismo (na sociedade), não é uma discussão sobre se existe ou não existe ou como existe. O relevante será pensar como vamos criar outros patrimónios que sejam inovadores e significativos para o nosso novo presente.

Eu gosto muito de citar o caso como o governo moçambicano lidou, em 1975, com o património construído pelos portugueses em Moçambique. Para simplificar vou usar o exemplo da estátua de Salazar que se encontra na Casa da Moeda de Maputo. O que fizeram os moçambicanos. Colocaram-me de castigo. Voltado para um canto. Não a destruíram, ou derreteram (é de bronze). Não deixaram o património herdado nos seus espaços de dominação na cidade, mas também não o destruíram. Reduziram-no. A sua história continua a ser, sem dúvida,  contestada, polémica, simbolicamente violenta. Mas só o reconhecendo foi possível construir novo património. Esses patrimónios são como anjos caídos, que depois de terem sido úteis se dissolvem na poeira do tempo, para se reconfigurarem de novo.

Noutro assunto tem também o nosso colega Pedro Cardoso Pereira razão. As nossas universidades estão a ser responsáveis pela exaltação no tratamento das questões da história. O grau de simplicidade na problematização das questões patrimoniais torna-as co responsáveis pela violência que hoje sentimos na sociedade. A incapacidade de leitura do real nas universidades (elas são também instituições de outros tempos) deixou-as bloqueadas nas respostas e sitiadas das propostas “ativistas” sobre as narrativas do politicamente correto” criado pelas modas importadas do continente americano. 

Seria para necessário para inverter esse ativismo estéril, uma ativismo criativo e inovador. Uma pedagogia assertiva, que ao invés das proclamações e dos atos públicos de afirmação pessoal, promovessem a pedagogia decolonial e pedagogia para a autonomia. trabalhando as heranças contestadas na base duma cultura de paz. Eu desconfio que não o sabem fazer !

A revolta de nada serve sem libertação do ser! Mas isso ficará para outra ocasião.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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