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Os equívocos de Luís Raposo no “Arte Capital”

Tenho por Luís Raposo uma elevada estima e reconheço o seu contributo para a museologia portuguesa (talvez deva dizer para a causa dos museus portugueses).

Num artigo recentemente publicado na Arte Capital  apresenta, quanto a mim dois equívocos e uma constatação, que se não me engano são motivadas pelo recente “procedimento concursal” para diretores de museus que a nova lei da autonomia dos museus prevê.

O primeiro equívoco é confundir museologia com museu. Se Museu é uma organização social, o estudo do que lá acontece (os seus fenómenos e relações) ou que lhe são específicos justificam a sua “ciência”, ou não são específicos e portanto serão uma “técnica” ou outra coisa que lhe queiram nomear. Como grandezas diferentes que são não são comparáveis.

Fazer isso é pensar que a medicina é igual ao hospital, a escola é a educação, ou a prisão é a justiça, ou que a biblioteca é um depósito de livros.

O segundo equívoco, tem a ver com a questão da relação com os valores dos objetos. Por princípio, os objetos dos museus sendo de elevado valor simbólico, não se constituem como objetos de mercado. Embora no passado tivesse havido museus onde se vendiam objetos (no século XIX era vulgar um museu ser um espaço comercial), há hoje um consenso bastante alargado sobre a natureza das organizações museológicas (sobretudo públicas) de que o seu objeto não prossegue o lucro. Trata-se portante dum fim social.

Mas essa condição não constitui nos dias de hoje um impedimento para pensar as organizações sociais a partir da sua sustentabilidade. E sobretudo pensar a sustentabilidade das organizações públicas.

Ora uma das discussões que hoje se tem sobre a questão da sustentabilidade das organizações sociais implica pensar para alem da dicotomia entre o publico e o privado (ou entre a obrigação do estado de financiar a cultura e a liberdade do empreendoismo cultural trocar bens simbólicos e produtores de bem-estar). Nem tudo é preto e branco, e sobretudo nem tudo tem que ser cinzento. Pode ser, por exemplo, colorido.

Há contudo uma constatação que não posso deixar de estar de acordo com Raposo. As várias formações que existem hoje nas universidades portuguesas são imperfeitas e estão longe de providenciar as necessidades de profissionais nos museus. Museu e Universidade são hoje dois “negócios” diferentes.

Para o bem e para o mal as universidades na sua formação pós-graduada são hoje espaços subordinadas a outras lógicas que não as do serviço público.

Se fosse jovem eu escolheria hoje ir para a “Bussinees School” de Carcavelos em vez da velhinha Faculdade de Letras no Campo Grande.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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