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XXX- Educação e Autonomia

Tem-se vindo a falar, nas sequência da afirmações do responsável pela pasta da educação em Portugal, que se equaciona a possibilidade de no próximo ano letivo as escolas do país continuarem encerradas, e o chamado ensino continuar a ser feito à distância, isto é através do atual sistema implantado na crise do COVID19, por via das aulas por plataformas digitais.

É certo que a evolução tecnológica tem vindo a permitir uma maior latitude da intervenção das instituições de ensino. Herdeiros dos sistemas de planeamento centralizado, a escola, ou melhor a implementação da universalização do ensino, foi feita com base no território.

Semelhante ao sistemas quadricular, o espaço e a sua população é dividido em unidades, um território educativo, tutelado por uma escola. Como a educação é um direito universal e a escolaridade obrigatório, ao estado cabia desenvolver um ensino publico. Para isso organizou uma rede de equipamentos escolares. A Republica ainda ensaiou a construção de alguns equipamentos, mas será o Estado Novo, na década de 40 e 50 que iniciará o plano de construções escolares para o ensino primário. Escolas feitas a partir dum desenho do arquiteto Raul Lino, a cada região correspondia um tipo de escola. Imagens que ainda hoje surgem na paisagem urbana e rural.

O Liceu era então visto como uma escola urbana para as elites locais. Era um equipamento mais imponente, com uma marca mais intensa na cidade, por vezes rivalizando com as escolas comerciais e indústrias. Já no final do Estado Novo, a chamada reforma do Sistema Educativo de Veiga Simão, levou a uma reorganização do parque escolar, introduzindo um Ensino Preparatório, de dois anos, com uma rede própria. O Ensino universitário, exclusivamente para elites, situava-se nos grandes centros urbanos, instituindo a república as universidade de Lisboa e Porto, que passaram a ombrear com a centenária academia coimbrã, durante várias centúrias centro jesuíta

Com a aventura democrática, o sistema ampliou-se, quer em número de anos, de alunos e de territórios. Novos modelos foram construídos nas periferias das cidades, para satisfazer a procura e a mobilidade da população que nos anos sessenta setenta se torna urbana e industrial.

Recentemente, durante o consulado de Sócrates e da Maria de Lourdes Rodrigues, foram criados no território nacional, os Agrupamentos Escolares, cuja ideia foi “racionalizar” a gestão das escolas. Embora a intervenção destes governantes tenha ficado conhecida pela intervenção no “parque escolar” , um ambicioso plano de reabilitação de edifícios escolares, a reforma também formalizou as áreas de influência das escolas.

Todas estas intervenções no sistema educativo mantiveram a ligação duma população um território. Cada agrupamento deveria satisfazer as necessidades de acesso dos jovens nesse território. Nas escolas do primeiro ciclo mais pequenas, por isso mais numerosas, e mais próximas dos espaços residências, nas cidades; enquanto nos centros urbanos de média dimensão, no interior do país, se criaram megas complexos educativos, por contrapartida dos encerramentos das redes de escolas das aldeias, questão que durante muito tempo foi discutido a propósito da questão da desertificação.

Ora este modelo colapsou na crise do COVID 19. O sistema do ensino On Line que os substitui falhou também. Será fácil encontrar razões para tal. A incapacidade de planeamento e o desconhecimento das coisas básicas da relação educativa.

E como tudo falhou, prepara-se uma repetição para o próximo ano letivo. Não se trata de desconhecimento ou de incompetência. Trata-se duma agenda que tem um objetivo preciso. A rosão do ensino público está aí, perante a cumplicidade de todos.

E o que é que esta questão tem a ver com a cultura. É que a lógica vai ser a mesma. É certo que os museus abriram (ou estão a abrir). Uma boa parte por pressão das organizações de profissionais, de onde se destaca, neste caso concreto a APOM.

A cultura mantem-se em crise e as discussões dos atores dos museus continuam as velhas polémicas, cuja relevância talvez sejam duvidosas, criadas no tempo anterior ao COVID.

O que a situação me tem chamado a tenção, nesta comparação entre educação e cultura, para além da semelhança na inépcia dos governantes na ação, é que muito em breve os museus serão chamados a procurar justificar a sua existência perante a sociedade que está em mudança.

Estão pois perante o desafio de criar a sua autonomia.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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