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XXVIII– Porto Seguro

Contava no postal de ontem duas história de linhas cruzadas. A “arte da Xavega” acabou por desfiar memórias e ocupar o espaço narrativo previsto. Por isso, contamos hoje a segunda história, também ela desafiando as memórias de juventude sobre desacertos na observação do real.

Um bom amigo, escrivão de crónicas mundanas, fez-me chegar as suas memórias do seu confinamento durante a crise do COVID19, com o título “ P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19”.”. Na sua introdução discute a o livro de Joseph Conrad “Tufão e outras história ” publicado pela editora Difel, 1989. Tufão é um livro de 1902.

Segundo Teixeira esta obra, insere-se no tema da transição. A experiencia narrativa, do marinheiro, retrata um momento em que a vleha arte de navegar à vela é substituída pela mecânica da indústria e do sistema que a gerou. Mais do que outras considerações que se possam tomar, este momento de mutação, entre um mundo antigo, que dialoga com a natureza, interroga os elementos e estuda as possibilidades de ação, e o mundo moderno do “projeto” digamos assim para simplificar.

Na história narrada o tal comandante MacWhirr, insensível ao tufão que se aproximava e aconselhava um desvio da rota por mares mais calmos, insiste na confiança da tecnologia suportada pela necessidade de maximizar os proveitos e racionalizar os recursos. Na senda da escrita de Conrad, a narrativa explora o conflito entre essa modernidade que confia na tecnologia e desaconselha o senso comum, apresenta os resultado dos frangalhos das ações, que ainda que possam ser sucesso, resultam em tragédias humanas

Encontrei Conrad e a sua escrita nos anos oitenta por via do filme Apocalipse Now de Coopola . Entre as várias atividade que enquanto jovem estudante me dedicava, por forte influência paternal, era ao cinema. Em regra à noite frequentava a Cinemateca Nacional, na Rua Barata Salgueiro em Lisboa. Na altura (e penso que ainda acontece) faziam ciclos autorais. Na altura João Bernard, o diretor, tinha o cuidado de produzir uma “folha de sala”, com as principais informações sobre o filme. Antes da projeção fazia-se uma pequena resenha biográfica do autora e do peça fílmica no conjunto da obra. No final do filme, reserva-se cerca de meia hora para o debate.

Este e outros filmes davam posteriormente origem a acesas reflexões filosóficas no círculo de amigos, muitas vezes feitas em longas caminhadas noturnas pela cidade.

Dizia que encontrei Conrad, através deste filme. Ainda que a narrativa de Coppola se tenha afastado da do livro de Conrad, a subida do Rio (Congo) passando por diversas aldeias, em contexto de mudança. O tema do fim de um tempo ou a questão do fim do mundo produzido pela transformação (neste caso através do contato com a “civilização” metaforicamente simbolizada pelo Barco que subindo o rio ia ligando em rede os diversos portos). No caso do filme a questão da guerra do Vietnam, com os seus momentos absurdos, com as pequenas humanidades que assumem formas exageradas foi  uma narrativa poderosa. A questão das viagens e as transformações (ou não) que produzem em cada um, foi tema que fui seguindo, Viagens individuas, viagens coletivas, que foram por diversas maneiras influenciando os caminhos criativos.

A imagem fílmica de Coppola na minha geração foi forte. Um amigo escreveu um livro inspirado no tema –Apocalispe Na).  Eu recordo-me mais tarde, pelos anos noventa, ter visitado numa praia de Alto Chavon em Santo Domingo, a prais onde tinha sido filmada uma das célebres cenas do filme, o ataque com bombas napalm, ao som das Valquírias, com o objetivo do lunático Tenente-coronel fazer surf naquelas que eram consideradas, na narrativa fílmica, as melhores ondas da Indochina. O absurdo entre a destruição de vidas humanas e da natureza por um objetivo tão prosaico, era então evidente.

A questão que então debatíamos, e que mais tarde se foi desenvolvendo era sobre o acaso. De como várias variáveis independentes, num dado momento, se cruzavam. Neste caso, vaiáveis feitas de valores e desejos absurdos, que se cruzam com rotinas estáveis de territórios dotados de pureza e inocência. É claro que nem sempre esses espaços e essas comunidades não eram lugares de pura inocência nem nele habitavam cândidos. Este tipo de narrativas, como a de Conrad, mostravam momentos de tensão entre mudos que se encontravam e desencontravam. Narrativas sobre desacertos.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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