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XXVIII– Arte da Xávega

Quando um marinheiro aporta a um porto seguro, regressado das aventuras em mares tropicais, reencontra memórias. São duas linhas que se voltam a cruzar. Linha que tiveram dinâmicas diferentes, independentes, que seguiram linhas e lógicas próprias, reconstruindo as suas memórias.

Ao longo do dia de ontem, duas histórias relacionadas com estas velhas histórias, regressaram à memória.

A primeira foi vivida na Caparica, o esplendoroso areal às portas de Lisboa, que ao longo dos anos se foi transformados de aldeia de pescadores, para área balnear e área de dormitório da margem sul.

Ao longo da juventude foi porto seguro das férias de verão familiares. Com os primeiros calores de junho, passados a época dos santos populares vividos em Lisboa, uma velha camioneta de caixa aberta chegava pela manhã. Era dia de azáfama lá por casa. Aos poucos, colchões e roupas de cama emaladas e carregadas. Alguns tachos, panelas, pratos e talheres encaixotados, enviados para a casa de verão, alugas ao ano no início, depois ao mês. A família aí aportava a banhos até ao mês de setembro, com o chefe da família a fazer viagens diárias, de autocarro entre Cacilhas a Costa da Caparica, pois era época onde o luxo das férias ainda não era universal.

Havia rotinas que se mantinham, como a ida à praia da parte da manhã, a visita aos familiares com banca no mercado, para abastecimento de víveres. Da parte da tarde uma sesta e uma saída para a “mata”, onde se encontrava alguns amigos, se liam livros comprados na papelaria local (nessa altura andava a ler a coleção dos “Sete”. Mas os momentos que me eram mais agradáveis eram as visitas aos “Mouras”, uma velha família que veraneava numa casa em cima do areal. Implicava por isso levar os calções de banho e por aí ficávamos até ao por do sol.

O Por do sol na Caparica é um momento sagrado do dia. O momento em que o astro rei caia sobre o horizonte, inundando tudo de raios dourados e deixando o mar da cor da prata.

Também por essa hora caíam sobre o areal os pescadores da arte da Xávega. Com os seus barcos de peixes desenhados nas proas. Redes de tresmalho com saco. Sempre agasalhados para suportar a friagem que pela noite se faz sentir. E o final da safra, as sardinhas a saltarem, prateadas. Por vezes, suponho que seria aos sábados, comprávamos uma caixa ali na praia e levavam-se para casa e assavam-se nas brasas de carvão.

Nesse tempo não era grande admirador de sardinhas, mas gostava daquele ritual de praia e, com qualquer criança, de brincar sem horas na praia até que a escuridão tomasse conta das dunas.

Anos mais tarde, já jovem adulto, em visita à tia com banca no mercado, fui desafiado a “fazer qualquer coisas pela vida”, que é como essa minha velha tia, de nome Adelaide, casada com um pescador astuto que me recordo de olho azul e rosto tisnado pelo sol, dava ao “trabalho”.

Lá aceitei o desafio e durante uma safra, lá e dediquei à arte da xávega. Instalei-me na costa da Caparica. Ao final da tarde concentrávamo-nos no “bairro dos Pescadores” com uma merenda para aplacar a fome, caso ela viesse, pois antes não se saía de casa sem um bom prato de sopa “à pescador”. Depois íamos em cima duma camionete de carga até à Fonte da Telha, onde o mestre e o arrais tinham idos fazer a sesta pela tarde, para observar o mar, escolher o ponto de saía e marcar o lugar. Em regra o barco estava pelas imediações, pois cada “arte” tinha, por assim dizer, um dado território de pesca. Um direito que era sinalizado com a presença do arrais na praia, que dava a indicação da intenção da saír dum determinado ponto, onde a experiencia e a intuição indicavam maior probabilidade de extrair uma boa pescaria.

A “companha” era constituída por cerca de uma vintena de homens e mulheres que dividiam a pescaria em partes. O patraão e o arrais tinham uma parte pelo barco e pelas redes, outra parte para o trator e para a camioneta que levava o pessoal e o peixe para a lota. Cada remador tinha também uma parte. Quem ficava em terra a alar as redes tinha meias parte. Foi isso que me cabia de início, até ser considerado capaz de remar.

E assim passei vários meses. Ganhava-se conforme a pescaria. Uma vezes bastante, outras vezes, pouco mais dada do que trazer algum peixe para casa para o dia seguinte, o que também faziam parte do pagamento, em regras retirado das ultimas caixas, que não iam à lota.

E assim fui pescador de arte da xávega durante um ano!

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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