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XXIII-Museus Portugueses para a diversidade?

Dando continuidade à questão sobre a definição dos museus como espaço de narrativa inclusiva, no postal anterior, onde abordamos essa questão a partir dos museus nacionais portugueses, concluímos sobre a difícil inclusão da modernidade. Há alguma tensão entre o discurso nacional português, que procura a afirmação duma identidade construída socialmente, com profunda ligação com as narrativas históricas novecentistas (de afirmação das nacionalidades); e a aceitação de narrativas que assumam a pluralidade de vozes que existem no seu contexto.

As narrativas museológicas portuguesas são no essencial elitistas e unívocas (monovocais). O seu local de enunciação é palaciano, construído numa leitura ideológica da histórica, silenciando comunidades e memórias. É certo que há algumas exceções, que confiram as regras. Em Mértola, na continuidade de um trabalho que vem de David Lopes, Borges Coelho, assumido por Claudio Torres num contexto de uma vida dedicada à diversidade cultural, afirmou-se alguma pluralidade de vozes. Poucas influências irradiaram, embora Torres tenha um escola (arqueológica) com vários trabalhos a sul do Tejo.

Notamos também uma concentração destes equipamentos, qualificados como nacionais, na cidade capital. Resultado do tempo dos museus, é certo. Mas também na cidade de Lisboa, como já noutro sítio notamos (The Role of cultural Diversity for Sustenaible Cities, 2018, p 144) , se verifica uma concentração de “equipamentos” no seu “centro” histórico e turístico. Estamos a falar dos museus nacionais e dos museus municipais. Ao contrário do que sucede, por exemplo, com as bibliotecas ou centros culturais, os bairros onde habitam os lisboetas, não tem museus. Não á museus em Chelas, no Bairro do Padre Cruz, na Musgueira, no Vale de Alcântara, etc.

Não há memórias dos lisboetas que construíram a cidade, não há trabalho sobre o trabalho na cidade, sobre a vida na cidade. Não há trabalho de inclusão nem sobre a diversidade sobre cidade, a partir dos seus museus (Há mais uma vez algumas excepções que confirmam a regra no Museu de Etnologia). Não é que o trabalho museológico que agora se encontra subordinado à EGEAC seja mau. A questão é que continua a predominar uma estratégia voltada para os turistas e paras as narrativas elitistas, do pitoresco e das coleções de outros tempos, com as quais se vai convivendo com estéticas modernas.

Inclusão e Diversidade são hoje conceitos redondos. Politicamente corretos, não são questionados de forma crítica pelos profissionais dos museus. O que quer dizer inclusão. Etimologicamente significa colocar dentro de. Como conceito de política pública, significa trazer as comunidades marginais (periféricas) para o centro das políticas públicas. Como a ideia do DIM 2020 do ICOM é inclusão na diversidade, implicaria dar voz à pluralidade dessas comunidades.

E como se trabalha museologicamente com essas comunidades marginalizadas para as incluir na sua diversidade?

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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