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Educação Crítica

XXII – Museus Portugueses inclusivos ?(O Lugar de Portugal no Mundo VI)

Mais do que definir o que é ou não é museu, talvez importe discutir os processos patrimoniais que acontecem nos museus portugueses. Por hipótese, a caracterização dos museus portugueses, corresponderão a um retrato ou a uma narrativa patrimonial.

Para evitar a questão do que consideramos ou não museus, não porque não seja relevante, mas porque representará um universo muito extenso, cuja responsabilidade de conhecer deveria caber a um Instituto ou Observatório (que não em Portugal não existem como ferramenta de política pública), olhamos para os ”Museus Nacionais”.

O Instituto Português de Museus foi uma figura administrativa da Administração Publica Portuguesa criado em 1991 até 2011, quando a lógica da “austeridade” levou à concentração de vários departamentos numa Direção Geral do Património. Essa estrutura administrava diretamente os museus nacionais e o processo da chamada Rede Portuguesa de Museus. O Observatório das Atividades Culturais, criado em 1996, numa parceria entre uma universidade e o Ministério da Cultura, foi extinto também em 2011, e desenvolveu vários trabalhos de investigação sobre atividades culturais, entre os quais os museus.

Malgrado estas entidades terem existido e estudado os museus, as diversas transformações da administração pública levaram, no momento atual a um deficiente conhecimento da realidade.  Traduzindo numa linguagem mais corrente. Se queremos conhecer o que é o “panorama museológico” português, no tempo presente, ou adamos no terreno ou conhecemos por aproximação, por via de inquéritos ou conversas de corredor. Confesso que durante os anos em que tive a oportunidade de ler trabalhos de investigação, vários foram os candidatos que conduziram estes inquéritos a museus. Em regra conduziam a resultados redundantes, pois quase sempre as questões colocadas apenas permitiam conhecer uma realidade “administrativa”.

É uma tradição “regulamentária” que se tem vindo a instalar no país, mal absorvida a tradição europeias, que se miscigenou sobre a prévia estutrutura administrativa autoritária herdade do estado novo. As ações só existem se estiverem previstas nos regulamentos ou nos projetos. Se não se enquadram nas normas, não são considerados ou são negadas. A negação de realidade é um estado de alma!

Na falta de melhor olhemos então para esse universo dos museus e palácio nacionais. A listagem é conhecida. São 24 “equipamentos” (veja aqui http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/museus-e-monumentos/dgpc/) que ostentam a categoria “nacional”. Esperam-se que sejam representativos da “nação”.

Como podemos ver, estes museus são todos eles museus criados a partir duma ideia de cultura como “elite” ou como “erudição”. De popular encontramos apenas o museu de arte popular, resquícios da exposição do mundo português, e da ideia de portugalidade que se pretendeu criar a partir do folclore. Ou seja observa o popular a partir dum lugar de elite.

Uma outra questão é a sua distribuição pelo território. Dos 24 equipamentos, 13 estão concentrados em Lisboa (cidade), aos quais podemos juntar mais 3 na sua área metropolitana. No Porto 1, em Coimbra 2, ao que se juntam alguns em cidades médias, incluindo o recém-criado Museu de Peniche, criado como resultado de um movimento social contra a gentrificção do espaço, e que se constitui como o “museu do regime”. (não vem ao caso mas a sua narrativa é idêntica a um museu de Lisboa).

É uma distribuição por antigos palácios, casas senhoriais, com temas eruditos, excetuando-se os casos referidos, não se vislumbrando neles as questões da diversidade e da inclusão social. No Algarve e nas Ilhas, por exemplo não há museus nacionais. No Alentejo 1, na Beira Interior 1 e em Trás-os-Montes também não há (há alguns casos em que os equipamentos são administrados por um regime fundacional).

Poderíamos ainda introduzir uma outa variável, que é o tempo de constituição. Herdeiros duma tradição perservacionista do século XIX, os museus mantem-se razoavelmente estáticos no tempo. São herdeiros do seu tempo. Nessa leitura, a museologia portuguesa ainda está na “era das revoluções”. Tarda-se em entrar na modernidade.

Há aqui um paradoxo que dificilmente os museus herdeiros do “tempo dos museus” poderão ultrapassar. Estes museus são nacionais porque se constituem como uma narrativa de todos, ou são nacionais porque são em termos simbólicos “únicos”? E são inclusivos? São inclusivos da Diversidade?

Estas questões talvez pudessem estar em cima da mesa no DIM 2020?

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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