Categorias
Billets

XXI– O Lugar dos Museus

No próximo dia 18 de Maio, comemora-se mais uma das datas convencionais, no caso o Dia Internacional dos Museus (DIM no calão disciplinar), neste ano dedicado ao tema “Museus para a igualdade: diversidade e inclusão”.

Entretanto persiste a indefinição sobre o que é e não é museu. Depois do Impasse gerado pela revolta dos “comités nacionais” em plena Assembleia Geral de Quioto, em 2019, onde a decisão sobre a definição proposta foi protelada, o comité executivo acabou por renomear uma nova comissão para estudar o assunto.

Já várias vezes afirmei a minha opinião sobre a inutilidade desse debate. Definir uma coisa é categoriza-la. Criar limites sobre o que é incluído e o que não é incluído. O problema de definir o que é Museu, é que há que distinguir sobre o que é a instituição formal “museu” (organização), daquilo que lá de faz (e das relações que nesse lugar se estabelecem – os processos).

Ora há muito que sabemos que os processos ligados aos patrimónios e às memórias, enquanto relações sociais, acontecem em toda a sociedade e em todas as organizações sociais, sobre as quais constroem as suas narrativas mnemónicas de legitimação do poder. Não é um atributo exclusivo do “Museu”. Há aqui uma primeira redundância da questão.

No entanto há uma a organização denominada “Museu”, que sendo uma construção social, gosta de retratar a sua história como um lugar “lugar sagrado”. Um lugar de contemplação que assume como exclusivo, pois nele existem objetos que não existem foram deles porque são dotados duma essência. Essa individualidade só é acessível porque mediada por um “sacerdote”. A definição de “Museu”, como organização é um resultado desse debate no tempo, que traduz os diferentes compromissos sobre o que é sagrado e exclusivo com critérios e categorias estabelecidos num tempo de regularidades.

Walter Benjamim, nas suas “Teses sobre a “Filosofia da História”, que me recordo de ter livro numa edição da Assírio e Alvim (Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, 1982), fala-nos do Século XIX como um século dos Museus. Como um tempo, onde as nações em construção criaram narrativas sobro um passado herdado materializados em objetos carrados de aura (objetos simbólicos que tinham como função permitir uma transcendência do ser individual e coletivo).

Ao longo do século XX, por diversas vias, os Museus e os seus arautos foram sendo canibalizados por diferentes vias. Conviveram durante muito tempo com outras instituições de memória, (arquivos, bibliotecas, universidades), assumiram formas de instituições (museus nacionais, museus militares, museus de empresas, museus municipais), especializaram-se funcionalmente (museus de arte, etnologia, arqueologia, de história natural e filosofia da ciência). Nuns casos modernizam-se por via da construção do seu próprio objeto (museus de ciência e tecnologias), noutros casos por incorporação do social (das comunidades e dos territórios). Dentro do próprio museu, estabilizada que estava a museologia geral e específica, instalou-se a instabilidade, primeiro por via dos serviços educativos (anos 50), depois por via dos museus de comunidade (anos 70), reclamando pelo “museu integral” e pelo “museu como instrumento do desenvolvimento” (eco museu).

Entre as primeiras definições de museus e as suas sucessivas mutações  e ajustes (para uma história da definição veja-se aqui )podemos encontrar os vários diálogos e tensões vividos nos diferentes tempos que vão influenciar as leituras do conceito de museu. Ao longo do tempo esse conceito varia e vai-se adaptando. A atual discussão é reveladora do impasse a que se chegou entre as várias visões em tensão. Uma segunda redundância.

No próximo DIM2020 termos uma velha definição que alguns defendem, outros consideram exígua para conter os novos impulsos. Uma definição que se anuncia para reformular e que agrada a alguns e merece dúvidas de vários profissionais.

O que isso significa é que a instabilidade está instalada, e por mais que a atual definição agrade a muitos, ela já mudou. Não reconhecer a mudança é fazer como a avestruz que esconde a cabeça num buraco para se esconder. Será que conseguirá acolher o desafio da Diversidade e da Inclusão social?

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.