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Educação Crítica

Poética da autonomia XIV – A Cidade pendémica

Uma das atividades que é suposto, ou pelo menos recomendado pelo ICOM, como tarefa dos museus em tempo de pandemia, ainda que encerrados, é documentar esse tempo na cidade.

Trata-se sem dúvida duma tarefa difícil para a maioria dos museus e dos seus profissionais que Há muito estão confinados nas suas coleções e nos seus edifícios. Para este, o que a pandemia trouxe de novo, pelo menos para alguns deles, é a total ausência do público. Ausência forçada através do encerramento compulsivo das portas.

Documentar a vida das cidades, dos seus habitantes, é coisa que raramente encontramos nos museus tugas. Com honoráveis excpções, estes museus centrados nas suas coleções, não colhem a vida do mundo exterior. Os seus profissionais, formados nas escolas museológicas lusas, também não têm habilidades para o fazer.

Este ano o ICOM propõe como tema do Dias internacional que se celebra a 18 de maio a questão da Diversidade e da Inclusão. Tema bonito, dentro do discurso politicamente correto, que convida, em ano de tensões em torno da definição de museu, as belas proclamações de princípios.

Não deixa de ser curioso que estes grandes eventos são rapidamente apropriados pelos aparelhos de marketing dos museus. Falhos de ações, capturam ideias externas, apropriam-se indiferentemente dos objetos que se pretendem para o tal “dia internacional” (que recorde-se é a inclusão social da diversidade) a vendem o seu próprio produto.

Seria de prever tal como se recomenda aos profissionais de museus, que, por exemplo, nos museus de uma cidade surgissem atividades sobre as suas populações mais carenciadas, sobre a diversidade das suas gentes, dos problemas que existem nesta situação pandémica.

E com alguma perplexidade que entre as abundante iniciativas virtuais e temáticas que vão surgindo, esta pandemia que afeta a todos, o que mantem encerrados os museus, não veja uma proposta de ação dos museus que afeta.

No meu parco entender, um museu que está ligado à sua cidade, estaria na primeira linha de enfrentar a pandemia. Não fazia de conta que a vida corre normalmente, de forma virtual. Debater não baste. É necessário agir.

A minha cidade:

Saio. Não encontro ninguém na vereda. Ouço os cantos dos pássaros e observo a primavera em flora. Se este fosse um tempo normal, veria gente em azáfama, correndo para seu seus destinos. Sinto o sol na cara. Delicio-me com a brisa doce do vento suão. No caminho, entretido a contar pedrinhas, recebo um telefonema da prima Ana a dizer que está grávida. Há esperança de vida em tudo. Continuo a andar. Perco-me na arriba. Deixo-me levar para onde sopra o vento. Haverei de chegar a bom porto.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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