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Poética da autonomia XII –Dia da Lusofonia

Com o alívio das medidas de cofinação passa a ser possível uma maior mobilidade no território português. O Estado que se outorga no direito de limitar a liberdade de circulação dos seus cidadãos, em nome de um suposto benefício de saude pública, reconhece agora que o risco de propagação de doença contagiosa se encontra controlado. Ou seja, se foram tomadas medidas de prevenção, em vez de se estar em casa, em isolamento social, passa a ser possível circular com maior liberdade, ainda que supostamente esses movimentos tenham como justificação ações laborais ou visitas familiares.

O bem-estar necessário ao equilíbrio físico e psicológico, que implicasse, por exemplo, um passeio num jardim próximo da residência, não esteve sob medidas de coação ou restrição. Mas não era suposto que esses passeios se traduzissem em longos passeios nas praias ou em Parque naturais, encerrados ou limitados no uso que estiveram.

Portanto, para além de trabalhar o acesso ao espaço natural passou a ser menos tutelado pela mão do Estado. Em si é uma boa notícia, ainda que os espaços culturais se encontrem, com exceção das bibliotecas e livraria, se mantenham fechados, com abertura programada para a segunda quinzena.

O acesso à leitura não esteve por isso condicionado, ainda que não pudesse passear numa livraria, física, tivemos durante todo o período de emergência acesso a livrarias virtuais, e aos jornais.

O acesso à cultura foi assim divididos, entre leituras e passeios. Ambos limitados. Agora que os limites se vão alargando, podemos, em tese fazer o que quisermos.

Uma dessas coisas é celebrar o tal dia da Lusofonia, que a 5 de Maio de comemora. Nos anos anteriores era apenas uma dada. Agora, na falta de assunto, ganhou mais adeptos nas redes sociais, que um pouco por todo o lado escrevem poemas e exaltam as virtudes da língua imortalizada por Camões.

Entre os poemas exalta-se o seu número de falantes. Orgulhosos os tugas reclama-se como a 6ª língua mais falada do mundo. 240.000.000! Duzentos e quarenta milhões dizem ufanos.

Na verdade é que desses, se retirarmos os 200 milhões que estão no Brasil, sobram 40 milhões, dos quais 10 estão no território luso. Dos trinta que restam, entre emigrantes e habitantes de países africanos o seu número é uma incógnita.

Por exemplo, na Guiné-Bisau, dos seus meio milhão de habitantes, menos 10 % serão falantes de português. Aí o português encontra-se em claro retrocesso, face ao Crioulo e ao francês. Em Moçambique polemiza-se sobre a escolha do português, após as independências, como língua nacional, havendo quem defenda outra língua nacionais. Em Angola, entre o Quioco e o Quinbundo, o Cabinda etc.

Pergunta-se então quais os resultados das estratégias para a língua, quem a faz e como a faz, e quais os resultados que estão a ser obtidos. Não me atrevo a opinar mas temo que talvez não seja animador. Não nos resta pois alternativas senão em continuar a viver nessa ilusão da língua imperial e talvez fosse bom celebrarmos o diálogo dessa nossa língua com as outras línguas que fazem crescer esta língua.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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