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O lugar da forja – Kahs Shirne Trepoe

Era um dia de calor sufocante com o só há em África, quando as nuvens anunciam a proximidade da chuvada intensa. Um cheiro intenso e adocicado exala da própria terra. Inebriados subimos para o todo o terreno que se preparava para ir até ao “lugar da Forja” um sítio da idade do Ferro na Tanzânia, “perto” de Kilwa (a Quiloa descrita por Ibna Batuta e mandada arrasar pelo Vice-Rei Francisco de Almeida). Liderava o grupo Peter Schmit, um arqueólogo e antropólogo da “velha guarda”, com um trabalho de mais de trinta naos na região. (https://anthro.ufl.edu/2019/07/31/peterschmidtarchaeology/).

A questão da exploração do ferro, da sua extração foi, ao longo do primeiro milénio uma questão que envolveu uma teia de relações complexas na África Oriental. O domínio das jazidas do ferro e a sua técnica de transformação e comércio são essenciais para compreender as complexas relações de poder que se criaram entre os povos do litoral, os Suaíli, as comunidades de pastores e os agricultores. O lugar da forja, em cada aldeia era um lugar dotado de forte simbolismo, acessível apenas aos “iluminados”.

Na época pós-colonial, após os anos sessenta até ao movimento de islamização do início do atual milénio, o turismo era a principal fonte de receita destas comunidades. Sobretudo após a escolaridade, perante a falta de trabalhos fora da agricultura, os jovens tornavam-se guias turísticos.

De manhã saiam de suas casas, num aglomerado urbano periférica duma cidade, e primeiro de bicicleta, depois de motorizada, lá se dirigiam para a antiga aldeia, recriada no lugar da forja, de casas de matoque e telhado em colmo. Lá dentro, trocavam as suas jeans e sweatshirts com imagens de cantores e de ídolos do futebol, envergavam uma “roupa tradicional”. Há porta da “palhota” vendia artesanato aos grupos de turistas que os visitavam e que chegavam em mini-buses de 9 lugares, a caminho de parques de animais. Davam uma volta pela aldeia, e no final dançavam ao som de tambores.

O cenário não será muito diferente das feiras medievais que grassam no verão pelos lugarejos acastelados do nosso país. O que foi relevante notar, nesse dia em que viajamos em torno das várias histórias do continente africano, é que por vezes as narrativas que são construídas sobre um determinado lugar, ou sítio, não são mais do que narrativas que servem os interesses dos atores em cena. Os turistas, porque tem a “ilusão” de visitar uma aldeia “primitiva” com autênticos africanos”, descendentes dos mágicos feiticeiros do fogo. É claro que nesta narrativa o lugar da narrativa científica fica silenciado. Ninguém á parece mostrar interesse nessas questões dos poderes simbólicos do uso do ferro no primeiro milénio.

No final do dia regressamos com os jovens rapazes e raparigas. A chuva tinha tornado as estradas cheias de lama. O todo o terreno progredia devagar ao anoitece. No final da jornada acabamos na conversa numa quitanda a olhar o Indicio. Sentimos a arejam quente que murmura histórias sem fim.

Não sei porquê, hoje no miradouro da Graça, ao sentir o vento quente do Tejo lembrei-me desta história.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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