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Poética da autonomia VI– Museus da Europa e alguns desafios tugas

Aos poucos vai-se tendo um conhecimento do impacto da crise do Coronavirus nos museus. A NEMO (Rede de Organização europeias de Museus) lançou aos seus associados um inquérito que acaba de ser divulgado.

Nas suas Constatações e Recomendações, podemos ler que mais uma vez se constata que é reafirmada a relevância da Cultura (e dos museus) para os tempos de crise. O que não deixa de ser uma posição curiosa pois como já vimos, as entidades culturais não têm sido consideradas relevantes para a solução da crise, embora os seus profissionais não o tenham deixado de proclamar. No tal regresso à “normalidade”, que todos sabemos que será diferente, fala-se muito das escolas, do futebol, do pequeno comércio, das indústrias. Nada de museus para já!

Do que sabemos pelas respostas do inquérito (e que não nos surpreenderá), é que a sua maioria está encerrada. Sejam espaços urbanos (cerca de 75 % do total) que é normal, sejam em espaços “rurais”, se é que ainda fará sentido fazer esta distinção. De nada servem para a saúde. Alguns atuam nas suas comunidades, ajudando no que podem. Pelas nossas terras viu-se pouco, o que não é de admirar dada a distância que persiste neste tipo de organização com o povão. 

Encerramento de portas significou perdas de rendas. Não será fácil recuperar os milhões perdidos com o turismo, ao que se soma a incógnita sobre o futuro do “turismo de massas”. Imagino que a Gulbenkian não seja muito afetada por isso, mas o tal “saco azul” dos Jerónimos e de Sintra não deixará de se ressentir. 

Perante a incógnita sobre o que será o “normal”, há uma consciência de que será necessário mudar alguma coisa. Mais uma vez se proclama que os museus podem ter um papel nessa nova “humanidade”. Mas como sabemos, entre os desejos e as realidades vai uma distância grande.

A NEMO reconhece que no curto prazo é necessário o apoio das entidades públicas para salários e continuidade dos projetos. Embora perspective alguma continuidade dos processos desenvolvidos pelos museus, não deixa de acentuar a “revolução digital” que está em curso.

Ainda que este “digital” seja algo enunciado de forma vaga e imprecisa, defende um aumento dos investimentos nestas áreas. Reivindica, por exemplo “ (…) aproveitar os esforços atuais e permitir investimentos em ofertas, serviços e infraestruturas digitais no futuro. Permitir serviços e atividades digitais de museus e o envolvimento do público digital”.

A questão que estamos perante um tempo novo ganha consistência. Vamos a ver como o debate se instala entre nós. Sobretudo como é que “Novos métodos de trabalho em museus que foram desencadeados por esta crise devem ser considerados para métodos de trabalho futuros e mais flexíveis nos museus em geral (…)”.

Imagino que será algo que a vetusta administração pública tuga e as atuais leis do património e museus terão dificuldade em encaixar, ou flexibilizar nas apertadas normas regulamentares.  Basta dizer que entre nós, por exemplo, um “museu digital” não existe. 

Talvez seja útil lançar essa discussão sobre o “fenómeno” do digital nos museus e património. E talvez fosse útil chamar outras áreas com problemas semelhantes para o debate (por exemplo a neurociência, a psicologia, a saúde, a educaçã . Se os museus continuam a falar só entre sí vai ser difícil “ser digital” e corremos sérios riscos de continuarmos analógicos. Substantivamente analógicos.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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