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Educação patrimonial

Poética da autonomia I –Distopia

A Crise da Cultura, em Portugal e na Europa é extensa e complexa. No conjunto de postais que efetuamos com o título “Memória dum Mundo Perdido”, no âmbito dum diário imperfeito sobre a Crise do COVID 19 demos conta da distopia que esta crise evidência. As instituições da cultura, enquanto lugares encontro encerraram. As pessoas ficaram, numa extensa maioria, sem trabalho ou sem perspetivas de trabalho.

Paradoxalmente o que se manteve, tendo mesmo sido reforçado, são os canais digitais. Apressadamente tudo se foi digitalizando.Para remediar os problemas do emprego, foram criadas linhas de financiamento, concursos e processos de intenções. 

Entre discussões questionamos se as atuais instituições da cultura, publicas, provadas ou associativas, estão a responder a esta distopia. E fomos mais longe. Questionamos se não seria apenas as instituições que já não servem, como também o trabalho que nelas é feito também já não serve os fins socias dessas organizações.

Com a mudança do trabalho, exige-se também as mudanças das configurações organizacionais.

Vários sinais de que estamos perante novas situações e as atuais instituições parecem ter dificuldades em responder de forma adequada são evidentes. Para problemas complexos exige-se um pensamento crítico e dinâmico. Três exemplos que advém desta crise. Apesar de se conhecer a virulência da pandemia e das formas de prevenção e tratamento que foram tomadas na China- o seu epicentro, a maioria dos países Europeus, tiveram num seu início dificuldades em assumir os instrumentos adequados de prevenção. Aliás, em alguns lugares ainda existem dúvidas que é necessário para, isolar e tomar conta dos mais frágeis.

Um segundo exemplo, doméstico: Já poucos se recordarão, mas no dia imediatamente ao encerramento das escolas públicas, após uma longa reunião dum conselho qualquer de saúde, constituído por solenidades da área, termina inconclusivo, com três linhas de recomendação. Ora não só muitas escolas já tinha fechado, como também muitos pais já tinham decidido manter os filhões em casa. No dia seguinte, o chefe do governo anuncia o óbvio e as escolas fecharam, até hoje. Mias. Na semana seguinte, declara-se o estado de emergência, tendo-se o país encerrado em casa. É ceto que houve exceções, mas a maioria das pessoas já tinha percebido o que era necessário fazer. Depois foi a polémica da Páscoa, para inibir de forma musculada as reuniões familiares. Agora, no terceiro prolongamento, para prevenir as manifestações de Abril e do 1º de Maio.

Será necessário tanto músculo perante o bom senso dos cidadãos. E poderíamos multiplicar estes excessos de músculo, acompanhados de desinformação, que vão entre a identificação de fiéis na missa, a operações de stop (20 de março) na ponte 25 de Abril, que levou a um congestionamento, depois noticiado como meliantes em fuga de fim-de-semana para o “sol da Caparica”. O normal passou a ser vigiado e punido. Será que os poetas continuaram a flanar pela cidade? Será que os namorados deixaram de cruzar os interditos?

O terceiro exemplo, é sobre o funcionamento dessas mesmas escolas. Sendo previsível que o tal encerramento fosse até ao final do ano, decidiu-se pela reconversão da “telescola”, um projeto de literacia criado nos idos de 1965, em pleno Estado Novo, para colmatar o deficit de professores e escolas e o excesso de alunos a alfabetizar.

Não sei se já viram os programas mas é assustador. E houve mais de um mês para preparar. É confrangedor, mas os recursos que forma mobilizados para isto são de tal forma imperfeitos e desconectados com a realidade tecnológica em que vivemos. Para além de tudo, que poderia ser mais facilmente feito pelos professores nas suas próprias salas de aulas, com aulas para os seus alunos. O pior de tudo é que nada disso acautela a relação entre o aluno e o professor, que é o centro da atividade pedagógica. Ou seja o tal #ensinoemasa não é mais de que um embuste. Ao invés de enfrentar um problema real com um solução adequada, substitui-se pela ilusão burocrática dos sumários do livro de ponto, neste caso, televisionados na “RTP memória”

Por isso falamos na Distopia. Tal como escreveram à mais dum século Orwell e Huxley, estas instituições e os seus pensadores persistem numa organização pouco humanizada, controlada, vigiada, e punida. Por isso falamos mais acima sobre um dos problemas da Europa como a emergência dos populismos.

Ou seja, perante a incapacidade de entender as mudanças na sociedade, o pensamento construído com base no conhecimento dum tempo de regularidades, estimula a emergência e processos vigiados, uniformizados que procuram manter o controlo sobre a vontade individual.

São processo característicos de modelos sociais em que os atores são desresponsabilizados pelo seu destino, organizações em que os chefes são sempre mais sábios dos que os subordinados.

Este é o problema destas instituições que já não servem. Uma questão em que o que é mais importante reside na própria instituição, na sua sobrevivência como instância de poder, mesmo que a sua função na sociedade se esteja a dissolver.

A questão, como sempre está em não nos deixarmos enlear por essa cantiga do bandido, e tomarmos nas mãos a responsabilidade pela mudança. Construir a autonomia crítica de cidadãos.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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