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Educação patrimonial

Memória dum Mundo Perdido XIII – Rendimento Universal para os trabalhadores da Cultura

Nos postais anteriores abordamos as questões de como construímos um pensamento sobre o mundo que se transforma e o mundo em que vivemos. São velhos dilemas teóricos, que por vezes, nas ciências sociais, surgem enunciados como “tensões entre a tradição e a modernidade”, a tensão entre o “uno (singular) e o todo” (complexidade)”, a relação entre “conflito (competição) e solidariedade (compromisso)”. Entre todos os dilemas está subjacente um macro dilema, que se relaciona com a formação das categorias de análise.

Não vamos agora detalhar essas questões, mas apenas enuncia-las para ter uma ideia clara que entre pensamento convergente e pensamento divergente não existe, no mundo real, uma contradição. Eles coexistem e usamo-los constantemente para interpretar o mundo. Piaget chamou-lhe um pensamento concreto (convergente) e abstrato (divergente). Entre a razão “prática” e a razão “pura” habituamo-nos a pensar o mundo entre categorias. Se temos um problema (por exemplo, quando somos bebés e sentimos fome) tomamos uma ação( choramos). Se a fome for satisfeita, essa ação torna-se padrão. Assim será até ao dia em que as condições mudam. Há um dia em que mesmo chorando não há mama e temos que ir à procura do mundo. Ora entre os mamíferos, (os que mamam), quando isso acontece já existem recursos próprios para explorar o mundo.

No caso concreto, dos problemas dos profissionais da cultura e do património, o COVID 19 criou um problema imediato, que se instala sobre problemas ou questões antigas. No passado, quando os profissionais se manifestavam, em regra a solução era “deitar dinheiro sobre o problema”. Ou seja, perante um problema concreto, uma ação fina.

A questão aqui é saber se essas ações (finas) de deitar dinheiro sobre o problema, embora tendo a sua utilidade, são efetivamente eficientes para resolver a questão que o COVID 19 levanta.

As evidências, para sistematizar o que esta a acontecer no mundo da criatividade e do património. Uma súbita paragem das atividades nos processo criativos de contato com públicos, envolvendo cancelamento de espetáculos (festivais, feiras, concertos, exibições), encerramento dos equipamentos culturais (bibliotecas, museus, arquivos, escolas, cinemas, teatros, salas de exposição, centros culturais, livrarias, salas de concertos).

Uma paragem forçada que tem dois tipos de efeito: uma abrupta perda rendimento dos profissionais e das empresas e associações das artes e espetáculos, e o encerramento de todos os espaços associados a essas atividades, ao que acresce a incerteza sobre: quando voltam abrir (quando se pode voltar a fazer negócio) e como e quando volta a haver dinheiro para a sobrevivência.

Ora como vimos mais acima, as respostas de emergência a esta situação foram direcionadas para : para os profissionais e empresas a criação de linhas de apoio de emergências; e para as organizações, a procura de soluções que passam pelo digital, nas suas múltiplas formas (concertos à janela, em casa, leituras nas plataformas médias, aulas à distâncias, conferências, livros disponibilizados, acervos de museus disponíveis, visitas virtuais, etc.), em regra gratuitos. Aliás, como muitas vezes surgiu, o setor criativo e cultural foi dos primeiros a responder ao confinamento e a criar as suas plataformas digitais (que aconteceu, porque muitas das atividades já as usavam, desde o youtube ao instragram, facebook entre outras menos conhecidas). Contudo na maioria dos casos foram ações solidarias, não remuneradas, que pouco efeito tem ao nível dos rendimentos.

A questão que tem vindo a ser referenciada, sobre a questão dos apoios de emergência é que elas tem sido direcionadas para as empresas formais e profissionais liberais (que como sabemos integra relações laborais precárias e profissionais que prestam serviço a múltiplos clientes). Os profissionais com uma relação de emprego pública não foram afetados por esta perda de rendimento.

Os problemas e as suas respostas foram até aqui uma tentativa de mitigar

 FormaProblemaMitigaçãoQuestões
ProfissionaisCancelamentoPerda de Rendimento  Subsídios ConcursosInsuficiência
InstituiçõesEncerramentoPerda de receitaApoios PúblicoViabilidade

O pensamento prático, convergente, produzido como resposta à situação de crise, recorreu aos instrumentos das políticas públicas para as arte e cultura. Ou seja, instrumentos pensados e elaborados para situações estáveis, de rotina, foram adaptados para uma situação “extraordinária” inusitada e instável.

É natural que assim suceda, como será também natural, que face aos problemas e insuficiências, nos próximos tempo se assista a uma reconfiguração das medidas de apoio. Sempre no âmbito da lógica convergente.

Entre as várias questões que ficam para resolver, está a sustentabilidade de algumas instituições (por exemplo quando uma instituição perdem receitas) e sobretudo, quando, entre os profissionais das arte e cultura, não conseguem acesso aos subsídios e apoios, porque já antes da crise viviam em situações instáveis. E note-se que essa é uma das características do setor criativo, que vive sobretudo de relações de rede de colaboração.

Ou seja há um conjunto de problemas que permanecem por resolver. Problemas que exigem um pensamento mais denso, que inclua as dinâmicas de transição do setor.

Sabemos que a cultura será essencial para o futuro. Grande parte do bem-estar físico e emocional da sociedade depende do acesso à cultura e à criação.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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