Categorias
Educação patrimonial

Memória dum Mundo Perdido VIII – As elites e os problemas atuais

A escrita contida em postais, com o máximo de uma página como referência base, escrita diariamente como disciplina de trabalho, tem algumas desvantagens. Uma dela é que por vezes leva-nos para reflexões que antes estavam ocultas, que não tendo estado presente do plano de problemas iniciais, vão ganhando relevo durante a escrita. Obriga-nos por vezes a ampliar o espaço e a dividir os postais, desviando o assunto central. É o caso da crise das elites, que nos tem desviado do tema central, que é procurar pensar as alternativas pós-COVID, assumindo a convicção que o mundo que aí vêm não será igual ao que até aqui vivemos.

Por isso como escreveu num postal publicado na Lista Museum no passado dia 10 da Abril “não se deve confundir o digital com a mudança de paradigma”  (http://ml.ci.uc.pt/mhonarchive/museum/msg21100.html) , num artigo que vale a pena ler e entender que o desafio é “transformar” porque temos que “reorganizar o trabalho”, no campo da cultura e do património. E para isso é relevant a questão das elites.

Ao longo dos anos oitenta da centúria passada, na Academia esteve na moda os estudos das elites. Entre as várias questões que foram alocadas, uma era transversal: A questão da capacidade das elites produzirem a modernidade do país. A entrada na Europa parece ter dado a tal modernidade no tecido económico e social. Mas será que a produziu nas mentalidades?

Foram anos das políticas públicas para a cultura. Em grande parte, foram desenhadas e vertidas para corpo da Lei os desígnios constitucionais enunciados em abril de 76 (Num outro lugar refleti sobre essa questão veja-se “Ato Patrimonial: Estudos Sobre Educação Global e Diversidade Cultural” in Informal Museology Studies, 2018, #22 https://wordpress.com/page/informalmuseology.wordpress.com/1300) Como aí analisei, o capítulo sobre a cultura aborda cinco grandes áreas questões do direito ao acesso à cultura, o direito ao usufruto do património cultural, o direito à criação cultural, o direito à participação na formulação de políticas pública, os direitos de criação cultural.

Toda a arquitetura normativa no campo da cultura radica nesses princípios. E esses princípios, para a questão que nos interessa, foram em grande parte desenhados, são sobretudos defendidos e ensinados nas universidades por uma geração ou, como lhe temos vindo a chama uma “elite”.

A questão que devemos interrogar a estas elites, é saber como elas estão a resolver os problema disruptivos que afetam a cultura. Disrupção tecnológica é o impacto que a tecnologia está a ter no mundo e que obriga à atual transição.

Há várias maneiras de lidar com a disrupção tecnológica. Uma delas. Muito comum nas nossas elites, é faca à incapacidade de a reconhecer, negar a sua existência. Um exemplo disso basta olhar para o que está a suceder nas escolas portuguesas com “regresso à telescola”. Outra maneira de lidar com a disrupção é pensar que a tecnologia é uma coisa que ajuda a fazer as mesmas coisas, mas de forma mais barata, mais fácil de mostrar, mais rápido. É o que alguns estão a fazer reproduzindo as mesmas práticas, agora através da internet. São as digitalizações de acervos, as visitas virtuais, os concertos na Internet. Finalmente à uns quantos, poucos, que tem vindo a afirmar, desse às uns anos a esta parte, que o que esta a mudar é o paradigma (para usar esta expressão grata a Edgar Morin e a Khun).  Uma mudança que transforma a forma como consumimos o património. Ou dito numa linguagem moderna como oferecemos o serviço patrimonial.

E isto porque o que está em causa é a forma como a sociedade usa o património. Ou seja a resposta a um simples questão de para que serve o património?.

Um exemplo que estava a suceder nas nossas cidades é o fenómeno da “uber”. Ainda à poucos anos assistimos a um feroz bloqueio do aeroporto, feito por taxistas enfurecidos, revoltados contra a concorrências das plataformas digitais. Em poucas messes a contestação social foi sanada e a plataforma tem hoje uma utilidade social para transportes urbanos, para entregas de alimentos ao domicílio. Tudo funciona na tal plataforma. O que interessa acentuar é que aqui há uma abordagem novas e uma novas ferramenta que altera a forma tradicional de fazer as coisas.

No património também há novas ferramentas e novas maneiras de fazer as coisas que estão por aí a surgir. A questão é como reconhecemos essas novas formas. Ou melhor como reconhecemos esses problemas. Só assim podermos dar uma resposta nova.

Os processos disruptivos implicam outras formas de pensar e de fazer. Estarão as nossas elites a dar essa resposta. Na minha opinião não, ou estão a fazê-lo de forma insuficiente e imperfeita.

As respostas à crise que estão a surgir por parte das nossas elites, e por consequência das instituições que controlam.

As respostas que estamos a ver são respostas que estão direcionadas para os produtos oferecidos em vez de serem direcionados para as pessoas. Isto é. Temos respostas de apoios de emergências para produtores, para artistas com agendas canceladas. Temos museus a digitalizar apressadamente espólios, anteriormente guardados com ”direitos”, bibliotecas a ofereceram base digitais.

Aquilo a que estamos a assistir, é uma tentativa de mitigar o impacto negativo na atividade patrimonial. A remediar a situação, na esperança que após a onda disruptiva, tudo regresse ao normal.

Mas será mesmo isso que é necessário. Ou não será melhor apostarmos nas pessoas?

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.