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Educação patrimonial

Memória dum Mundo Perdido VII – A Crise das elites

Esboçamos nos postais anteriores algumas reflexões sobre a crise europeia e sobre as respostas enunciadas. Respostas à crise, que convém recordar, resultam de questões ou problemas colocados. É por isso que enuncio aqui a crise das elites.

Ora como temos vindo a procurar evidenciar a Europa parecer ter como forma de resolução dos seus problemas, lançar dinheiro sobre o assunto. Parece que a política europeia (e os seus planos) passaram a ser um assunto orçamental. Também em Portugal, as políticas públicas, como bem sabemos são uma questão orçamental. Melhor financeira: Quanto dinheiro é alocado a um determinado fim, ao qual acresce a questão do cesso a esse “bolo”.

Vimos isso na Crise da Dívida, com chamados cortes “cegos”. Vimos isso nas várias pequenas crises que deram origem ao período da chamada “geringonça”, entre a tensão gerada pela “reposição de rendimentos” e as “cativações”. Tensões que foram geridas com a natural gestão de expetativas entre interesses diferentes, com alguns sobressaltos derivados daquilo que foram novas formas de sindicalismo. Talvez valha a pena recordar o monumental falhanço da reivindicação da reposição dos anos de serviço para os professores. A luta hibrida dos enfermeiros, que mantiveram um longo braço de ferro com um ministério Hibrida porque recorreu a fundos de greve para compensar as perdas salarias dos grevistas, porque os contrário dos “famélicos da terra” que nada tinham a pedrar no tempo da revolução industrial agora tem efetivamente muito a perder, entre prestações da casa e do carro, as escolas dos filhos, ou mesmo mais prosaicamente um salário decente e uma “carreira” profissional, como os seus pais tiveram.

Há ainda outras tensões que acabam por não chegar ao público, pelo silenciamento que merecem na comunicação social (também ela em crise). Poucas informações chegam dos Estivadores do Porto de Lisboa, o que talvez tenha justificado a proibição da greve neste período de emergência, situação insólita em todos os países europeus. (porque razão se suspende o direito à greve se os trabalhadores foram mandados para casa). Outras tensões que apenas de quando em vez ganham primeiras páginas, como seja o drama dos sem-abrigo no centro das cidades, desalojados que foram para alimentar o mercado dos B&B. Os drama dos emigrantes nos subúrbios das grandes cidades. Todo esse mundo está agora ausente das notícias, mas os problemas estão lá. E são sintomas dum mundo em mudança.

No mundo da cultura sabemos que a situação já era dramática. É certo que é um mundo com maior heterogeneidade, entre servidores publico, profissionais liberais e free-lancers, durante este últimos anos não deixamos de ouvir as sucessivas queixas contra o sub-financiamento, contra as desastradas políticas de financiamento público para as artes e para o património, o que contrastava com a vitalidade dos grandes espetáculos, na concentração das empresas produtoras e com a vitalidade da atividade turística que era, não convém esquecer, uma consumidora deos serviços de eventos e património

É por isso que iniciei o postal a falar da crise das elites. Em Portugal verificamos que existe uma dualidade nas elites portuguesas. Uma dualidade que se arrasta desde a modernidade do século XVIII, que se traduz numa querela entre os estrangeirados e os integralistas.

A Europa parecer ter atenuado bastante esta dualidade, pois quando o dinheiro da Europa fluía em quantidade, a modernidade parece ter tomado conta das universidades que fizeram fluir para o tecido produtivo da cultura os profissionais das artes e património. As influências foram chegando de diversas partes. Primeiro de França, influenciadas pelas política centralizadores de Malraux, depois por via anglo-saxónica, pela políticas de do “espetáculo”, outras ainda de outras vias e experiencias que foram afluindo à foz do Douro, do Tejo e do Guadiana em função dos vários trânsitos dos profissionais num mundo global.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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