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O Medo e a Esperança: Outros Patrimónios

Vai já para uns anos (salvo erro 6), que escrevi num artigo a que chamei “a nova museologia e os movimentos sociais em Portugal”.

Nele procurei refletir sobre a forma como a museologia (no seu sentido mais lato duma “patrimoniologia”) representava e integrava as questões das mudanças sociais. 

Na senda de Castells, refletia as formas como primeiro o medo e depois a raiva catalisou os movimentos de transformação social. 

https://bell.unochapeco.edu.br/revistas/index.php/rcc/article/view/2603

É certo que nessa altura ainda tentava operacionalizar o conceito de Nova Museologia, na sua vertente de Museologia Social como processo de interrogar o mundo contemporâneo.

Ao fim destes anos, o Movimento da Nova Museologia e a Museologia social fizerem um caminho de reflexão interessante. Em 2016 na Amazónia, alargou a sua reflexão às questões ambientais, em 2017 na Argentina e na Irlanda do Norte, trabalhou sobre as memórias e os conflitos. A discussão prossegui em 2018, e Bogotá, alargou a reflexão à questão da resolução de conflitos e Às questões dos “comuns”. Procurou-se com isso alargar e constituir um campo de reflexão que criasse alternativas na ação no tempo contemporâneo.

Contudo, pelo que me tenho apercebido, essa reflexão não tem condições para continuar nessas bases. Bloqueou nos seus próprios pressupostos

Como aqui tem vindo a ser apresentado as mudanças são rápidas e profundas. O objeto patrimonial mudou e novos desafios confrontam os sujeitos desse património.

Sinteticamente:

a) Registamos mudanças no mundo económico. Aquilo a que vulgarmente chamamos de “capital” ou seja o conjunto de recursos que se podem mobilizar para satisfazer necessidades sociais, mudaram radicalmente. As novas tecnologia e a automação de processos desmaterializam os objetos. Com isso o objeto patrimonial (o que é considerado relevante para ser conservado e transmitido) muda radicalmente. O seu foco já não uma cristalização, mas o processo (a mudança como objeto)

b) Registramos mudanças no mundo social: As organizações sociais, a família e o poder confrontam-se com mudança radicais nos seus processos relacionais. Das relações estáveis com base na consanguinidade e na identidade territorial  são confrontadas com novas sociabilidades que decorrem da relação com a máquina e a automação.

c) Registramos também as mudanças na consciência do desafio do contexto ecológico. No passado, o mundo era visto como algo que podia ser conhecido e apropriado sem limites, a consciência ecológica trouxe a noção dos limites planetários e a consciência da ação humano na radical transformação das dinâmicas ambientais. A atual crise sanitária é um exemplo claro dessa consciência. Nunca na história da humanidade emergiu a necessidade de paralisar o planeta para combater uma pandemia.

São mudança, que revelam a ”angústia” e “medos”.

Mas como sabemos pela mitologia grega, no mito da caixa de Pandora, os deuses dotaram-nos de sentimentos, razão e perceções.

Se o medo exige um ato. Esse gesto, é a Esperança.

Ajamos pois. Deixemos os poetas cantarem.

Lançamos poemas no mundo para criar outras museologias e outros patrimónios. O desafio é saber como escrever essa poesia.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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