Categorias
Billets

Museologia Social e Saúde Global I

Entre 2013 e 2014, quando no mundo da cultura de discutia a questão do quarto pilar do desenvolvimento sustentável, procuramos alargar o campo teórico da museologia às questões contemporâneas. Trabalhámos desde aí várias questões económicas, sociais e ambientais. Uma das questões que então abordamos foi a questão da Saúde Global, projeto que temos vindo a prosseguir, com as habituais dificuldades que existem em Portugal, para se fazer pesquisa inovadora relevante. Escrevemos então:

“A Saúde é unanimemente reconhecida como a pedra de toque do desenvolvimento sustentado. A Declaração do Milénio e os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) que neste ano terminam assim o indicam. Tudo indica que nos novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que no próximo mês serão discutidos nas Nações Unidas também o continuarão a ser.

Neste número da Revista “Heranças Globais – Memórias Locais” damos início à publicação de quatro números temáticos relacionados com a base do nosso trabalho sobre a globalização. Iniciamos com a Saúde Global, prosseguiremos com as questões das Alterações Climáticas (nº 7), que no final do ano estarão na ordem do dia. Em 2016 será o tempo de abordar a questão do Desenvolvimento Sustentável (nº 8) e finalizaremos com as questões das “Fronteiras do Planeta”. São quatro temos que são trabalhos no âmbito da Rede SDSNedu (ONLINE EDUCATION FOR SUSTAINABLE DEVELOPMENT), uma rede da qual fazemos parte no âmbito do nosso projeto de investigação.

Os indicadores da saúde são diretamente responsáveis por muitos dos ODM, e indiretamente responsáveis por outros tantos. As questões da educação, género, trabalho, criação de riqueza, participação das comunidades, são apenas algumas questões em que uma “Boa Saúde” se pode considerar como condicionante.

É certo que nos últimos quinze anos o mundo se transformou profundamente. Ainda que nem todos os objetivos propostos nos ODM se venham a verificar no final deste ano de 2015, é certo que muitos avanços foram alcançados em muitos dos problemas, ao mesmo tempo que outros persistem e mesmo novas questão emergem. Também não deixa de ser verdade que há várias regiões do mundo que avançam de forma mais significativa, ao mesmo tempo que há outras que se quedam em indicadores mais débeis.

Neste número sobre Museologia Informal e Saúde Global procuramos primeiro conhecer a transição epidemiológica, para depois refletir sobre de que forma é que os patrimónios das comunidades podem ser mobilizados para a resolução de questões relevantes para a construção de inovação social. Temos defendido que o alargamento do campo patrimonial passas pela procura de questões socialmente relevantes e por uma atuação em domínios que anteriormente estavam reservados a outros profissionais. Defendemos que a museologia deve estar preparada para conhecer o mundo e resolver os problemas que são emergentes, ou mesmo antevê-los. Por isso abordamos a questão da Saúde Global com um campo da atuação.

As transformações que ocorrem no mundo de hoje são imensas. A população mundial cresce a um bom ritmo, prevendo-se que em 2030, os atuais 7 biliões de seres humanos passem a ser 9 biliões. Todos terão que comer e ter acesso aos bens essenciais. Comida, Educação Saúde, Habitação, Trabalho e rendimento. Sabemos que a vida será também cada vez mais longa.

Isso leva a relevância da questão da Saúde Global. Está em curso uma transição demográfica e epidemiológica. Enquanto em muitos lugares do mundo ainda persiste o fardo das doenças infeciosas, em muitos lugares, sobretudo nos espaços onde o desenvolvimento emerge, emerge o pesado fardo das doenças não contagiosas.

Sabemos pela experiencia do mundo do norte, que a extensão do desenvolvimento económico e do chamado “bem-estar” que o mercado dá acesso, é acompanhado pelo fardo das “doenças do desenvolvimento” Doenças do coração e respiratórias, cancro e diabetes crescem exponencialmente nas sociedades “desenvolvidas”. Um espectro que se está a alargar aos países de rendimento médio e economias emergentes. Também o desenvolvimento traz consigo a expansão dos riscos do consumo, com o abuso do tabaco, álcool e outras drogas, mas também de hábitos de vida mais sedentários, uma dieta alimentar desadequada. Há também uma maior exposição a riscos ambientais, como por exemplo a poluição do ar, um acesso desadequado a fontes de água e saneamento, espaços urbanos não amigáveis. Também sabemos que as alterações climáticas potenciam transformações. Transformações nas doenças e riscos nos modos de vida pela ocorrência de eventos climáticos extremos.

A Saúde tem um valor intrínseco, sobretudo compreendida como um Direito Humano básico. Mas este valor ganha importância se for contextualizado no quadro de sociedades inclusivas, economias solidárias e da sustentabilidade ambiental, os três pilares do desenvolvimento sustentável. A Saúde é influenciada pelo ambiente, está relacionada com a segurança alimentar, com o comércio e com as migrações. A Saúde tem uma influência positiva em diferentes sectores de atividade e os investimentos em saúde pública têm mostrado que eles resultam em impactos positivos no desenvolvimento económico. A melhoria da saúde pública tem também um impacto positivo em questões como a redução da pobreza, o empoderamento do género, a educação universal, a resolução de conflitos. Por isso ela fará certamente parta da nova agenda do desenvolvimento, como uma das suas mais relevantes ferramentas.

A Saúde Global olha para os determinantes de Saúde como uma ferramenta de trabalho com as comunidades no seu conjunto. A Saúde Global procura, enquanto ação, influenciar esses determinantes de forma a aumentar o seu impacto global, através da ação nos indivíduos.

Por isso estas lições constituem uma abordagem compreensiva do campo interdisciplinar da Saúde Global e permitem construir alternativas de trabalho para o alargamento do campo da museologia. Os conceitos que aqui são apresentados, são conceitos de importância vital para a saúde dos indivíduos, das comunidades e permitem entender de que forma a economia e o ambiente se interligam à sociedade, permitindo agir sobre todos eles com uma ferramenta holística. A visão que a Saúde Global fornece permitem criar uma consciência sobre os principais desafios da Saúde Pública, sobre os modos de vida, sobre os problemas da transição socia, económica e ambiental.

A estrutura do curso permite que cada leitor construa uma leitura do quadro de complexidade da Saúde Global. Fornece os conceitos básicos sobre Saúde Pública e Determinantes Sociais, coloca em discussão o problema global das doenças infeciosas, das doenças não infeciosas e permite entender as principais respostas que a Saúde pode fornecer para os problemas emergentes. Será ainda apresentado a importância dos sistemas de saúde pública, os diferentes métodos desenvolvidos em várias partes do mundo e a relevância da cobertura universal de saúde. Dará ainda conta das questões emergentes mais significativas, tais como as alterações ambientais, as novas tecnologias, a governação global, a partir do campo da Saúde Global.”

Recentemente tivemos oportunidade de trabalhar directamente num programa de Saude Comunitária na guiné-Bissau.

Ao longo dos próximos dias iremos desenvolver essa questão.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.