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Os meninos de Deus

Vai para uma dezena de anos, na velha cidade de Lisboa, ainda revolucionária e popular, vagueavam, inaviavelmente aos pares, sempre com o nome de Helder ou Inga, trajados com camisas brancas e calças ou saias cinzentas. Abordavam os mais incautos nas ruas divulgando a mensagem divina os “meninos de deus”.

Eram jovens, imaturos, provavelmente lançados para terras agrestes para ganhar calo, perseverança e fortalecer a sua crença. Poderemos comparar esses meninos de deus com os atuais expatriados em África, lançados em terras inóspitas, com costumes e comida estranha, a quem compete “evangelizar” com a doutrina tecnocrata , que os ajude a encontrar o “caminho” para a redenção ou para o desenvolvimento como agora se diz.

Por varias razões tenho tido contato com essa realidade desde os anos oitenta. E nao posso deixar de notar a transformação que se sente na presença de “quadros” técnicos em África. Não sei se será uma deficiencia cultural, ou um diferença técnica, ou mesmo uma diferenca de processos educativos. Mas dum modo geral o que eu vejo é uma grande incapacidade de lidar com o outro, de reconhecer ou outro, de sair da sua zona de conforto para explorar a diversidade, e sobretudo uma enorme desadequacão dos processos às realidades locais.

O que me admira muito ė como e que isso é aceite localmente. Talvez seja a velha sabedoria africana a funcionar. Eles sabem que mais tarde ou mais cedo todos partem, os projetos acabam e outros lhe sucederão. Entretanto vão vivendo e divertindo se, presumo eu, com os afãs tecnocraticos dos anjinhos, sempre com pilhas de papeis e bolsas de pc, onde se amontoam letras, palavras, linhas e parágrafos que retratam uma realidade que nao conseguem ver .

Serie Crónica da Guiné-Bissau XXVII

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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