Categorias
Cidade Mundo Sem categoria

Museu de Peniche

Museu Nacional da Resistência e da Liberdade em Peniche criado em 2017 na sequência de várias movimentações populares contra a transformação da Fortaleza de Peniche numa unidade de hotelaria de Luxo, onde hoje voltei depois de alguns anos (já existia no lugar um pequeno núcleos museológico da Câmara Municipal de Peniche sobre a prisão política do Estado Novo), é mais um dos equívocos da preservação da memória do regime democrático.

Não deixa de ser sintomático que surja num tempo em que essa memória se começa a estilhaçar, confrontada que está com o mundo real.

É um equívoco por várias razões:

  1. Pelo espaço: A velha fortaleza, criada como espaço militar de vigilância da costa da estremadura e em particular dos acessos a Lisboa, no século XIX, desocupada na sequência da evolução das tecnologias militares, tornada espaço de prisão política entre 1933 e 1974, dum regime fascista, é claramente demasiado grande para o projeto. Basta olhar o programa museológico para verificar que o “projeto” mais não é do que escrever um livro de história nas parede e salas. Uma história, que sendo naturalmente digna de ser lembrada, não necessita de ser “chata” extensa e ilustrada com detalhes de masoquismo comunicacional.
  2. O segundo equívoco é o nome: Museu da Resistência e Liberdade. Mais uma vez não se trata de por em causa a nobreza da intenção, nem o valor dos resistentes, nem tão pouco menosprezar o sacrifício que sofreram para que hoje sejamos uma sociedade livre e democrática. Mas o colocar assim o nome, aprisiona-se a liberdade. É sabido que a luta pela memória é eminentemente política. O programa museológico é um programa duma memória política feita vencedora em Abril de 1974. Ganhou a legitimidade do poder, ainda que em pequenos detalhes se nota algumas tensões sobre as interpretações sobre a narrativa. Mas escrever essa memória dessa maneira, a memória esgota-se. A liberdade que foi a revolução de Abril, fica aprisionada de si mesma,e quedará, inevitavelmente obsoleta quando o tempo quairótico por ela passar. Por isso o nome deveria ser Museu da Liberdade e da Resistência. Das lutas pelas liberdades e das resistências ao autoritarismo. Estou curioso para ver, por exemplo, que papel terão os movimentos de contra-cultura que abundavam no país entre 1962 e 1974.
  3. Finalmente o terceiro equivoco, o daquilo que hoje chamamos sustentabilidade. Hoje quando lá fomos encontramos dois técnicos e 4 vigilantes. Para tudo funcionar serão necessários muitos mais. Será que dentro de 5 anos o espaço museológico ainda será sustentável. Pelo que percebi pelo projetos há mais ideias escondidas do que desveladas. A ver vemos. Mas este é mais um exemplo paradigmático da forma como o património é tratado em Portugal.

Notas duma visita apresada: Entra-se no parlatório por uma entrada vetusta, antiga porta forte. Uma lareira e um ecrã gigante projeta fichas de presos (?). Quem diabo se lembrou de gastar recursos com a celebração da burocracia prisional. Alguém obcecado com a burocracia.

Esta dada o mote do museu. Se antes havíamos passado pelo memorial, onde a letra de ferro encontramos escrito os nomes de todos os que por lá passaram. O que é um monumento que honra o espaço e fazia prever algo com personalidade, esta abstrusidade faz lembra o velho costume militar dos soldados fazerem plantão ao soldado desconhecido. Em Peniche a narrativa construída não tem a liberdade como conceito gerador, mas centra-se nos “heróis”. Os presos são heróis duma história de resistência e a liberdade apresentada como o éden. Essa liberdade é celebrada como o clímax, tal como Camões cantou, no século XVI, a Ilha dos Amores, como a recompensa dos heróis, na epopeia dos lusitanos, os eleitos da estirpe.

Nesse sentido trata-se duma narrativa que procurando ser alternativa de combate ao Estado Novo fascista; de celebrar o seu fim e dissolução, tal como uma vitória da virtude sobre o “mal”, acaba por usar a mesma escrita neo-gótica fascizante com que ele inculcou as mentes do povo e das elites. Será possível uma narrativa museológica libertadora através duma linguagem fascista?

Prosseguindo. Entrado no vastíssimo espaço da fortaleza, poderosamente iluminda pelo sol, depois passa se para o parlatório. Ambiente austero, de paredes vazias, com as grades isolantes de presos, a acentuar o ambiente de separação e penitencia entre os presos e as famílias. A prisão era um castigo para quebrar o espírito da resistência. Numa pequena sala, em looping testemunhos de presos e famílias. As mesmas histórias do aljube, numa narrativa que se vai repetindo à medida que os cabelos brancos e rugas se notam nos narradores. Ainda nesse mesmo bloco, uma outra sala conta a historia da prisão. Dos seu quotidianos, alguns testemunhos das gentes de Peniche, solidárias que foram com os presos. Alguns retratos da vida que teimava em manter-se. Casamentos para que se pudessem concretizar visitas, cartas de pais presos para filhos, ilustradas com desenhos que são obras primas.

De volta ao pátio, ao fundo o promontório, onde as celas de isolamento mostram mostram o suplicio dos que teimam em não silenciar a voz, mesmo em condições de cárcere. Com as necessárias referencias dos que se foram libertando através de fugas heroicamente planeadas. Não há fugas mal sucedidas. Entre o promontório as alas em obras. Três blocos, cerca de 80 % do espaço em espera das obras de 2020. Aí será o grosso da narrativa O que acrescentará à que já está contada?

Regressando ainda há tempo de visitar a Exposição Temporárias “Por teu livre pensamento” um fado imortalizado por Amália Rodrigues, a partir do poema de David Mourão Ferreira, conhecido como o “fado de Peniche”. De forma tímida a exposição apresenta vários objetos recolhidos entre a população Local. Aqui se evidencia o trabalho feito pela parca equipa do museu de recolher memórias entre a população.

 Agrupada em três nucleos expositivos, assisitido por ecrãs plasma, passam imagens sobre três temas centrais da futura exposição ” a repressão fascista” a “guerra colonial” e o “25 de abril”.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.