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O Espaço e o tempo dos museus

Em “Memórias de Adriano” Marguerite Yourcenar escreveu: -“Ter sempre presente que aquilo que eu conto aqui, é determinado pelo aquilo que não conto”. Esta dupla face do que é relvado é simultaneamente o seu negativo é um dos paradoxos dos museus. De todos os museus ao longo dos tempos. Museu que contam histórias, que recolham e cuidam (salvaguardam) objetos, artefactos e rótulos.

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O tempo, que como sabemos não passa duma categoria de análise não resiste ao confronto com a impermanência, essa ideia de que tudo se transforma e que nós somos protagonistas dessa mudança.

Dizem que Camões a cantou, no ´seculo XVI, nos seus célebres sonetos.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Talvez nas suas viagens ao Oriente, ou à Ilha de Moçambique se tenha apercebido dessa ideia de transitoriedade.

Vem isto a propósito do texto que o ilustre colega Pedro Cardoso Pereira fez o favor de nos deleitar nesta quadra natalícia. A braços com as minhas transitoriedades, pouco atenção tenho dado a esta lista, mas vou acompanhando, por vezes com semanas de atraso as leitura.

Ora dizia eu que neste artigo, se reflete sobre o espaço dos “novos museus”, pergunta “Se as exigências de «Espaço dentro do Museu» (que implicam necessariamente também o tempo da Visita) não mudaram em relação ao que se faz até ao momento nos actuais museus”.

Não podemos deixar de estar de acordo. É naturalmente óbvios que todas a mudança que está a suceder à nossa volta, implica um novo tipo de museus. Em outro lugar eu chamei-lhe “teletecas”, que de acordo com a terminologia grega, seria depósito de encontros, ao invés dos atuais “museions” depósitos de objetos.

É certo que o atuais museus pouco terão a ver com o plotomaico “museum” de Alexandria, que na verdade ninguém sabe como era constituído, ideia entre nós difundida pelo manual de museologia da Universidade Aberta, de Maria Helena Rocha Trindade, nos anos oitenta, provavelmente absorvida de um outro manual do género. Algumas fontes, falam-nos do Museu como “lugar das musas”, uma espécie de liceu onde as nove filhas do casamento de Zeus e Mnemosine (simbolicamente o Poder e a Memória) exercitavam as artes livres. Confesso que sempre me seduziu mais esta última versão., mas como diria Yourcenar, isso diz mais sobre o que mim do que sobre essa realidade que o tempo se encarregou de ocultar, e que o século das luzes resgatou para sua utilização.

Ora é esse tempo iluminado que agora desparece face à revolução telemática. Já vivemos nesse tempo e será talvez tempo de pensar as memórias em espaço imanentes. Afinal, se a questão do poder estiver adequada, será esse novo poder que se afirmará como memória.

Como estamos em tempo de renovação, agora que o ciclo lunar se reinicia, lembro-me Mário Branco, que a propósito de Camões dizia :

“E se tudo o mundo é composto de mudança,

Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

Não será tempo de reinventar essa vetustas instituições. Se calhar se olharmos com atenção até já está aí nas nossas cidades. 

Para os mais puristas da língua aqui fica a versão camoneana na integra

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto:

Que não se muda já como soía.Luís Vaz de Camões in http://ensina.rtp.pt/artigo/mudam-se-os-tempos-mudam-se-as-vontades-de-luis-de-camoes/

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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