Categorias
Billets

Podem os museus portugueses ter uma estratégia?

Faz alguns dia que o meu ilustre colega Pedro Cardoso Pereira colocou neste liste um conjunto interessantes de questões a propósito da nova definição de Museu que irá ser discutida no próximo congresso do ICOM, a realizar na próxima semana em Kyoto, no Japão.

Interroga-se Pedro Pereira sobre a razão do silêncio dos portugueses na busca duma alternativa da nova definição de museu. Silêncio que a certa altura se constitui em dúvida sobre se é fundada sobre o medo ou sobre a incapacidade dos protagonistas lusos de assumirem uma discussão.

Tendo a concordar, embora triste, com este meu ilustre colega sobre a estranheza do silêncio da museologia lusófona nesta polémica. Um silêncio que se poderá considerar para efeito de análise, entre o alheamento puro e simples da questão, a incapacidade de formulação de alternativas, e o medo de agir.

Sobre o alheamento, conhecemos bem a tradição lusófona de discutir, de se exaltar e até assumir atos radicais sobre quem tem direito a usar a água do ribeiro que corre à porta de casa, deixando de lado a gestão da água do grande rio, embora por vezes a fúria das águas tudo leve. Uma boa parte dos nossos pensadores estarão pura e simplesmente alheados, alienados ou de fárias. Isto explicará uma parte do silêncio e do nosso fado.

Sobre a incapacidade de formulação de alternativas, conhecemos também a tradição, ou mesmo horror lusófono de reconhecer e enfrentar a mudança. É bem conhecida e mesmo valorizada no meio a “arte de ser português” que privilegia o olhar sobre a pequena escala, sobre o detalhe onde se manifesta o todo. Há uma longa tradição em resolver problemas ligando com arame as engrenagens da máquina que a certa altura se queda na picada.

Sobre o medo de agir, é também conhecida o funcionamento da máquina administrativa lusófona, onde se entre por relações de parentesco, o que no tempo condiciona todo o percurso. O sucesso nos museus portugueses continua a ser medido pelo número de visitantes, o que como sabemos é um claro indicador da atração ao invés de pensar no seu contributo para a sociedade.

Enfrentar águas revoltas dá sempre um grande enjoo. Embora a clamaria não nos faça sair do lugar, é sempre mais segura.

Como sabemos as alterações climáticas estão a produzir uma alteração das marés. Já não existem lugares de clamaria.

Será portanto necessário primeiramente reconhecer a tal mudança do património. Questão que suspeito, tal como este meu ilustre colega sugere, só será resolvida com outra geração.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

Uma resposta em “Podem os museus portugueses ter uma estratégia?”

Agradeço ao Professor Pedro Pereira Leite, meu Amigo, a referência. Também concordo com as suas formulações, relativas aos caminhos a seguir. E permito-me acrescentar duas achegas. A primeira, tem a ver com o excesso de emoção, de afetividade, e de individualismo que caracteriza a(s) Cultura(s) Lusófona(s). Essa aparente fraqueza será uma vantagem se toda essa energia criadora e impulsionadora puder ser guiada e congregada através do “sentido de Projeto” (porque senão, essa força dilui-se sem contribuir para criar Diversidade e Inovação). A segunda, tem também a ver com o desperdício das vantagens desse excesso de emoção/afetividade se não for guiado por um Projeto. Refiro-me a que as soluções nunca estão nas «organizações/sistemas/países/empresas» (esses entes abstractos que nunca choram nem procriam) mas nas «Pessoas». Há uns dias entrevistaram um israelita e um palestiniano que trabalham juntos, o jornalista de um dos mais prestigiados jornais do mundo estava admirado por conseguirem trabalhar juntos. A resposta de ambos foi a mesma: “A Paz? A paz só as pessoas a conseguirão fazer, nunca os países e as instituições”. Serão as Pessoas, e nunca o ICOM enquanto organização, que conseguirá a tal “(re)Definição”. E esse excesso de emoção/afetividade, esse impulso para a não submissão, essa força criadora da Diversidade (tal como é a Natureza e o Universo, e, já agora, também, a Amazónia) que caracterizam as Culturas Lusófonas, estou convicto, trariam um contributo relevante à Definição de Museu que o mundo procura em Kyoto.

Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.