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Ashram de Salamanga e o Santo Kalidas

Junho de 2019

Calane da Silva, neto de Kalane Megdji indiano de Gujerate, construtor do templo de Salamanga acompanha-nos na manhã num domingo de junho, numa visita ao templo de Salamanga. Segundo o mito de Kalidas, o templo foi edificado por vontade expressa do Santo, que há mais de cem anos passou pelo lugar. Calane da Silva vai-nos desvendado as histórias e memórias do sítio.

Para quem viaja na nova estrada entre Maputo e a Ponta do Ouro, ao atravessar a ponte sobre o rio Maputo a cúpula piramidal do templo, provavelmente o seguindo mais antigo de África, sobressai na paisagem. Estranha-se pois é um estilo de arquitetura que se diferencia claramente das construções africanas tradicionais que a rodeiam, bem como de algumas construções do tempo colonial em alvenaria.

Salamanga é uma pequena povoação do Distrito da Matauine. Compreende-se bem relevância da sua localização, na medida em que é o único ponto de atravessamento do rio Maputo. Mas a questão da construção dum templo desta dimensão, neste lugar à mais de uma centena de anos e da sua manutenção desde lá é uma questão intrigante. Não é possível de compreender esta construção sem entender a comunidade hindu de Moçambique.

Este é um templo que atravessa vários tempos da história. Nele confluem histórias e memórias que se refletem a sua natureza de lugar sagrado para a comunidade Hindu e que permanecem bem vivos.

Primeiramente é um tempo das migrações dos indianos pelo Indico. Migrações pacíficas de comunidades indianas que se perdem nos registos e nas memórias. Na costa oriental de África estão registadas desde o século XIII. Nesta região de Salamanga, passagem sobre o Rio Maputo, vão chegando nos finais do século XIX e ai permaneceram. Com os ritmos e fluxos do tempo as vidas vão-se ajustando e adaptando.

A História da família de Calane é um exemplo paradigmático. Kalana Magdji chega a Moçambique nos finais do século XIX. Conta Calane da Silva que lhe tinha sido preparados um casamento entre famílias segundo a tradição Hindu, que Kalana Magdji não queria honrar. A solução terá sido fugir de barco, aportando na costa oriental africana. Pedreiro de profissão dedicou-se à construção de edifícios e cantinas em Bela Vista.

A instalação de comunidades Indus no final do século XIX em Mantautine, Bela Vista deverá está relacionado com o início da colonização em Lourenço Marques. Com a transferência da capital de Moçambique, para a Delagoa Bay, e resolvido o contencioso territorial com os Ingleses, que reclamavam a faixa de terra entre o Transval e a Costa[1], a construção dispara. Os pedreiros de Dio são uma escolha natural. Com acréscimo populacionais é também necessário alimentar as gentes. Em Dio conheciam-se bem as técnicas de cultivo do Arroz e do Sal. Em Bela Vista estão reunidos os recursos necessários para estes três atividades. As minas de calcário as planícies de aluvião do Rio Maputo e a força das marés na foz do Rio Maputo. Salamanga fica no ponto onde o percurso do rio estreita, lugar ideal para ligar as duas margens e proceder ao transporte para norte, para a cidade de Maputo, por via terreste em picada ou por via fluvial.

Embora estas questões geo-políticas pouco interesse tenham para as comunidades indus, tradicionalmente preocupadas com o comércio e o trabalho, o crescimento urbano e demográfico do sul de Moçambique é um lugar ideal para o assentamento de novas vagas de migração da comunidade indu na região.

Mas porque o templo?

Voltando à história do construtor do templo Megdji, pedreiro residente na zona, sem esposa, mas certamente com algum prestígio social, segundo nos conta Calanda da Silva, terá procurado régulo Ngoanazi e soliciou-lhe uma mulher que o pudesse cuidar da casa. O chefe escolheu Mahazul Mabica, uma mulher ronga que tinha aprendido com uma senhora “clara” algumas técnicas de corte de tecidos e costuras. Com a sua esposa Megdji kalane teve oito filhos e faleceu em 1926.

Após a morte do marido avó de Calanda foi expulsa da casa, encontrado abrigo no Catembe, onde Calanda da Silva nasceu e recolheu os seus ensinamentos. Trata-se duma história que é um exemplo do início do processo de colonização europeia na região, que nos mostra a complexa relação com as comunidades africana locais.

Para finalizar a questão da construção do templo em Salamanga, segundo Calana da Silva, o seu avó terá sido testemunha direta da presença do Santo Kalidas na região.

O Santo viaja da India, do Estado do Gujerat. Terá entrado em por Moçambique ou Inhambane. De Inhambane terá andado a pé até Salamanga. Aí chegado deslumbrado ca a visão da natureza, da presença de muitas árvores e animais, escolheu o lugar para permanecer. Nessa época (em 1908) segundo Calandas da Silva deveriam existir em Salamanga uma população hindu com cerca 50 pessoas que administravam uma dúzia de cantinas. Era aí que à sombra duma árvore, o santo meditava, segundo os preceitos da religião Hindu.

Durante a sua presença em Salamanga terá feito vários milagres para a população local. Um destes milagres terá sido feito em Malhoca, alguns quilómetros para oeste. Segundo a história, a população local que lutava contra a falta de água potável, terá vindo a Salamanga interceder ao santo. Ao saber do ajuntamento de população, o administrador quis saber o que se passava. Desafiou então o santo a fazer um milagre na lagoa desse lugar.  O santo Kalidas aceitou de desafio. Conta-se que o administrador convida o santo para ir com ele de carro. Segundo a tradição, Kalidás terá respondido “Santos que caminham e rios que correm são coisas boas. Sigam vocês de carro. Eu vou caminhar, mas quando lá chegarem, eu estarei lá”. Quando o administrador chega à lagoa o santo já lá estava a sua espera. Pouco de pois tocou na água e bebeu—a. Até aos dias de hoje a população continua a beber da água da lagoa.

Pouco tempo depois, após uma longa meditação, o santo levanta-se a afirma que o seu trabalho em Salamanga estava concluído. Deixa instruções ao avó de Clanae da Silva para edificar um templo e desparece a andar sobre o rio. Não voltou a ser visto, nem se sabe para onde foi.

De acordo com a tradição local o templo terá sido começado a edificar em 1908, tendo sido concluído em 1914. Tratava-se duma estrutura quadrangular ornamentada com quatro pavões que rematavam as colunas onde assentava a cúpula piramidal.

Os tempos do templo

A comunidade Hindu de Moçambique não cessou de crescer. Os fluxos entre Gujerat e a costa oriental mantiveram-se. Em Salamamga, ao longo dos anos foram-se fixando indianos que tomavam conta de cantinas, como sucedera com a cantina de Minhembeti nos anos 60, também ele um exemplo desta epopeia que dinamizava uma importante rede de comércio formal que assegurava a subsistência alimentar da população, incluindo a ligação entre as comunidades africanas e os produtos do comércio.

Maputo será o ponto central deste comércio das cantinas. Do seu porto fluem para os territórios periféricos os produtos que a terra não dá, essênciais para o processo de agricultura que então se desenvolvem ao longo do rio Maputo. Em 1925 a comunidade Hindu de Maputo tona-se um espaço associativo que apoia a comunidade e os que chegam em busca de novas vidas. Ajuda também os que querem partir, pois em muitas situações as relações entre os vários territórios mantêm-se. A comunidade Hindu foi-se adaptando aos tempos e às diversas mudanças que ocorrem no mundo e em Moçambique, mantendo as suas tradições, visíveis no vestuário, nas práticas religiosas, na gastronomia, nas suas festas e nas práticas de entreajuda.

Essa especificidade ajuda a compreender a manutenção do tempo em Salamanga ao logo destes cem anos. Sem essa ligação à comunidade Hindu de Maputo e da sua diáspora no mundo é difícil de entender. Mas não basta apenas entender a generosidade e a devoção da comunidade, na sua manutenção e longevidade. Há nesse lugar algo que atrai e fixa. É um lugar com espiritualidade, respeitado e reconhecido por quem lá passa.

O templo é afetos por intempéries e pela fúria da guerras. Durante as grandes cheias de 1980, o templo original, edificado por Kalane Megdji foi afetado, tendo sido reconstruído numa cota superior. É o atual templo, que segue a tradição do antigo, embora mais amplo e com mais alguns elementos de devoção. Os pavões são contudo os mesmos. Ao longo dos anos, pequenas melhorias vão sendo feitas para manter o templo, onde muitas das principais peregrinações da comunidade se realizam, em particular durante o grande festival Diwali, ou das luzes, que assinala o ano novo hindu entre Outubro e Novembro.

Como lugar sagrado, ao longo dos tempos testemunhou também os principais acontecimentos do século XX em Moçambique. É testemunha das independências do pós-guerra, e das suas sucessivas ondas de choque na região. Em 1949 a independência da India. Em 1961 a integração das colónias portuguesas na Índia (Dio, Damão e Goa) e dos impactos que tiveram na comum idade Hindu. Em 1975 com a independência de Moçambique com o seu programa de socialismo africano. Na década de oitenta a guerra civil Moçambicana.

As sucessivas crises alimentares tem também os seus impactos na vida do templo, que desenvolve alguma ação solidária na comunidade. Em moçambique a seca e as cheias são cíclicas, arrastando com elas o inevitável ciclo da pobreza que a ação do templo procura minorar.

Os tempos do progresso do território, vão também impactar com a construção de pontes e estradas também marcam esse lugar. Todos os tempos tem homens e mulheres que vivem e se alimentam. Tudo isso este templo testemunha. A história do santo é um exemplo da mitologia hindu e da importância da água como fluxo purificador para onde todos fluímos.  Este templo é uma janela do mundo.



[1] A região está fortemente implicada nas guerras anglo-Bóeres do século XIX, que levará a constituição da Republica Sul Africana em (1910). É necessário não esquecer que prosseguindo de Salamanga para Sul, na atual fronteira da Ponta do Outro, instalou-se a Klein VrySttaat (com governo autónomo entre 1876 e 1891) integrando-se posteriormente na RSA. A situação de Salamanga, sobre o eixo sul-norte constituía um ponto de vigilância e comércio.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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