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Politicas Culturais em Portugal II: “A euforia” (1974 – 1976)

A Revolução de Abri, com a sua explosão popular nas ruas do país foi contagiada por uma euforia criativa que se vivia na europa. O regresso dos exilados de Paris, que haviam participado e assistido ao Maio de 68 trouxeram indubitavelmente muitas influências, mas havia também um “caldo” que se vivia no país, que verteu para a rua e para o espaço público. “A cantiga foi é uma das armas” desta revolução cultural tal como foram outras formas de expressão cultural no teatro, nos jornais e nas organizações associativas, onde muitos ativistas intervinham

Foram expressão desta “revolução cultural artística” os grupos mais ou menos informais de teatro, alfabetização, música e de intervenção cultural. É uma produção artística e cultural essencialmente anónima, produzida de forma coletiva em associações e coletividades, em “garagens” ou mesmo na rua de forma espontânea. Foi uma produção cultural feita à margem das instituições, marcada pelo tempo, pela urgência de se fazer sob o signo da experiência da liberdade. A produção é marcada por essa explosão da vida na rua, pela presença das pessoas na rua da cidade, e dos diferentes movimentos sociais, marcado pela vontade de construir o futuro. Foi o tempo de contruir agendas de ação, pela habitação, pelos direitos sociais e laborais. A questão do direito à cultura emerge como uma questão constitucional, marcada por um capítulo da constituição da República, em sintonia com as discussões na Europa.

A cultura em Portugal, antes de 1974 foi marcada por uma dualidade entre a “Alta Cultura” e a “Cultura Popular” ou folclore. O instituo de Alta cultura dava algumas bolsas de formação para a cultura, algumas grandes instituições foram criadas e desenvolvidas, como por exemplo a Biblioteca Nacional, as Universidades, o Teatro. Mas, de uma forma geral as intervenções eram moderadas, direcionadas para as elites, e contavam com apoio de algumas instituições privadas, como foi por exemplo o caso da Fundação Gulbenkian. O Folclore era olhado como uma manifestação genuína do povo, desenvolvia-se localmente, com apoios das organizações e mecenas locais. O Estado Novo fascista em Portugal é frequentemente caracterizados como marcado pelos 3 F, de Fado, Futebol e Fátima. Três consumos que união a pluralidade da nação, do Minho a Timor, ainda que a portugalidade a sul do mediterrâneo fosse alvo de resistências diversas, marcada por uma visão romântica dum povo rural, trabalhador e devoto.

Essa visão romântica do povo, emerge como uma das características da cultura em 1974, em confronto com uma cultura jovem e mundana na cidade. Os ritmos das músicas tradicionais misturam-se com novas sonoridades, coma as influências de África e da Europa. A musica de Zeca Afonso é uma marca desta tensão entre uma tradição que se recria e representam em o espírito desse tempo, de um tempo de liberdade criativa e espontaneidade.

Não é pois de estranhar que não haja a programação de grandes eventos, nem hajam profissões de promotores de espetáculos. Não há uma programação cultural. A cultura acontece[1], num tempo imediato, conduzido por figuras que ficaram conhecidas como “Cantigas de intervenção” e “Teatro de Intervenção. A criação cultural deste período é marcada pela dualidade entre o patrão e o proletário, o rico e o pobre, com mensagens simples, dirigida ao “povo” na sua expressão de coletivo indiferenciadas, vistos como autor da sua própria emancipação. À simplicidade narrativa das intervenções culturais, era conduzida por ativistas culturais, que se auto representavam como portadores das ferramentas de emancipação. Apesar dessas marcas constrangedoras, foi um período de muita criatividade, com uma produção rica e diversificas, que tomou conta da cidade em espaços pouco usais.

As instituições que vinham de trás tiveram grande dificuldade em acompanhar este movimento popular de criatividade, e na sua maioria permaneceram fechadas ao povo, sendo o caso paradigmático o São Carlos, vocacionado para ópera, que permaneceu fechado às elites. O Teatro Nacional Dona Maria II, que tinha sofrido um feroz incêndio permaneceu fechado, com algumas companhias de teatro de revista a surgirem a acompanharem as narrativas da época. A exceção à rigidez destas instituições, foi a Fundação Gulbenkian, que desenvolve uma política de descentralização cultural

[1] Entre 1994 ao longo de 10 anos Carlos Pinto Coelho, jornalista da RTP, conduzirá o primeiro programa cultural na televisão portuges, com este nome.

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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