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Disputas pela memória

A memória social é um campo de tensão, todos o sabemos!. Em Portugal é vulgar encontrarmos uma certa confusão entre Memória social e História, talvez pela promiscuidade do seu objeto empírico, isto é o processo de construção do seu objeto de estudo apoiados em ambos os casos em fenómenos do passado vistos num dado presente.  

Vem isto a propósito da publicação “quem é quem na museologia portuguesa?”  lançado na passada quinta-feira, no vetusto Palácio da Ajuda, pelo Instituo de História de Arte, na Universidade Nova de Lisboa, disponível aqui.

Clique para acessar o dicionario_quemquem.pdf

Escrevi quem é quem com letra pequena propositadamente, muito embora a iniciativa seja louvável, parece ter sido feita com alguma ligeireza:

Vejamos: Comecemos com o mais simples. Anunciam-se dois volumes, um até 1960, este agora lançado e outro que virá depois. Perguntamos o que terá acontecido na museologia portuguesa em 1960 que justifique esta ruptura temporal. Nada nos e dito. Apenas uma.conveniência sabe-se lá de quê ou de quem ? O Diciinario apresenta Neste dicionário apresentam as personagens por ordem alfabética, sem um critério contextual claro. Não por décadas ou por políticas culturais sobre  a memória (histórica) ou se quisermos ser “avant-garde”, políticas  museológicas. Onde estão as políticas  pombalinas, do liberalismo, da regenaração, da republica, do Estado Novo. Nada. Não existem. São personalidades que flutuam no éter.

Isto leva a outro problema. As pessoas. Não devemos menosprezar os conteúdos biográficos de cada ficha, na sua relação com equipamentos museológicos, ou mesmo como prática colecionista. São sem dúvida úteis. Mas interrogamos-nos sobre  com que critérios foram estes personagens incluídos, e outros não. Não encontrei por exemplo Possidónio da Silva, Leite de Vasconcelos, o III Conde de Ficalho,  Fidelino de Figueiredo, João Couto, Jorge Dias, Veiga de Oliveira, Irisalva Moita. Enfim, alguns talvez ainda tenham possibilidade de surgir no segundo volume. Mas Leite de Vasconcelos deve está a aguçar a sua adaga lusitana.

Ainda mais um problema, neste tempos que tanto se fala em “decolonizar os museus” , é a completa ausência de crítica. Por exemplo o conhecido Mendes Correia, pelo verbete ficamos a saber que é o 4º filho do seu pai, médico, a quem segue as pisadas. Até aqui tudo bem, pois quem sai aos seus não degenera. Só que logo de seguida ficamos a saber que cedo se dedica à investigação, afastando-se portanto da medicina “curativa” do seu pai. Cá um paragrafo de informação inútil e redundante. É certo que ele é fundador da “escola” de antropologia do Porto. E isso é relevante. Mas será possível nos dias de hoje omitir que a sua investigação, por exemplo, envolveu saber qual das tribos da Guiné Portuguesa era mais apta para o trabalho. Uma experiência que envolveu 5 “amostras”, um mandinga, um fula, um bijagós, um manjaca e um balanta, em que cada um ficava de pé com os braços abertos segurando um balde cheio de água, concluindo-se logicamente que a “raça” que mais apta estava para o trabalho, era a que mais tarde atingia a exaustão. E sito para não falar das experiências feitas com as mulheres, para saber quem era a melhora reprodutora. 

Talvez por isso neste “quem é quem?” judiciosamente seja omitidos os “zoológicos humanos” da exposição do Mundo Português” dos anos 40, organizados por Júlio Dantas (branqueado no verbete) e Gustavo de Matos Sequeira (convenientemente omitido). Não sendo museus, mesmo que aí tenha surgido o “museu colonial”, a questão fica arrumada.

Finalmente o osso mais duro de roer: a questão da “museologia portuguesa”. É sabida a querela entre a tradição anglo-saxónica (dos Museum Studies) , a tradição francófona (Museographie) e a tradição de “leste” da Museologia (a ciência que estuda a relação da sociedade com os seus objetos patrimóniais). 

Entre nós é fácil de distinguir a filiação “escolar” pela identidade profissional. Assim temos os curadores, os conservadores e os museólogos. É fácil. Assim, por exemplo o Rei D. Luís seria um coleccionador, (porque é que não é feito um verbete sobre o Dom Carlos?) sendo o seu curador Thomáz a Anunciapção. Agora chamar de museólogos a tanta gente será talvez estar a olhar para o passado “com o tal aparelho conceptual do presente” como diria Lucien Fevbre (ou seria Baudel ? não será antes Chartier? )

Palpita-me que quando vier o 2º volume vai haver bengalada o Palácio da Ajuda entre conservadores e curadores, por um lugar ao sol. 

Enfim a questão que vale a pena aqui deixar como crítica é mesmo que assumindo-se a Museologia como uma área de produção de ciência, o seu objeto de investigação é construído em função duma problemática teórica. Isto é “quem é quem” tem que ser interrogado em função duma questão relevante. Não da pessoa em si, mas das narrativas que construíram, no tempo em que elaboraram. E isso parece ser uma disputa pela memória na museologia. 

Mas agora reparo que isto é um IHA-SEED-PROJECT . Um projeto semente !(Porque será que surge entre parênteses Micro-Projeto)

 

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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