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Archipelagos – Passagens de Amélia Muge e Michales Loudovikas

A apresentação do CD Archipelagos – Passagens de Amélia Muge, uma iniciativa do Anagrama Studio Lab com apoio do Museu Afro-Digital, decorreu no passado sábado  dia 2 de Março no anagrama em Lisboa

Este é um projecto do autores que neste serrão, a partir duma conversa musicada sobre o seu CD ACHiPÉLAGOS- Passagens, nos propuseram uma viagem por géneros musicais e literários, no espaço e tempo do mediterrâneo. uma proposta de utopia.

A utopia de Amélia e Michales está baseada na tradição épica do mediterrâneo. O CD vem acompanhado dum ebook. que apresenta a proposta de trabalho sobre o canto e a épica que une os diferentes caminhos dos povos mediterrâneos, explorando pontes e sintonias. 

Da introdução

Amélia Muge e Michales Loukovikas encontram-se pela primeira vez em 2009 no mar da internet e desde então foram abrindo ‘janelas’ de interacção, ‘canais’ de comunicação, ‘pontes’ de ligação entre Portugal e Grécia, espraiadas por múltiplas geografias culturais. A admiração pelo trabalho um do outro provoca uma extensa troca de ideias, poesia e música (tradicional, contemporânea, original). Trabalhando online, por entre a imensa diversidade deste oceano, encontram interesses
e referências comuns, uso de idênticos meios de expressão e confirmam que as semelhanças são bem mais importantes que as diferenças; assumem carácter especial as afinidades mediterrânicas da história do mare nostrum, mar fechado mas aberto à nossa herança comum, em diálogo com as culturas dos mares Negro e Vermelho, dos oceanos Atlântico e Índico: um berço de civilizações que ainda nos surpreende e nos encanta, trazendo à luz o que têm de similar e de diverso.
A ideia do projecto, ARCHiPELAGOS / Passagens, baseia-se na característica mais importante do processo de trabalho adoptado no projecto anterior PERIPLUS / Deambulações Luso-Gregas: cada interacção tem um ponto de encontro específico; uma espécie de ‘versão ao vivo’ de momentos do passado, quando povos de diferentes culturas se encontravam e trocavam ideias e experiências, músicas e canções.

 CD-Livro PERIPLUS tem dez  pontos de encontro ou sequências. Todas juntas, mais as relações flutuantes ‘entre elas’, constituem um conjunto de ilhas imaginárias – um ARQUIPÉLAGO. É na continuidade deste puzzle marítimo, que se vem reforçar e alargar a rede de interacções no tempo e no espaço, aos níveis artístico, musical, literário, filosófico, social e histórico. Tal como em PERIPLUS, o carácter organizador dos pontos de encontro sequenciais dá a ARCHiPELAGOS / Passagens um  e enquadramento mais vasto do que o de um trabalho linear multi ou inter cultural entre Portugal e Grécia.

A ideia é ancorar nalgumas das ‘ilhas’ já visitadas, descobrir outras, assinalar as passagens e reforçar a ideia de ‘viagem em mar aberto’ – em que Helenos e Portugueses mostraram ser peritos – mas também de ‘viagem interior’, de descoberta de si – conceito presente nos domínios filosófico, científico e artístico, reflectido nos
trabalhos de Cavafy, Damásio ou Pessoa.
Este projecto, tal como o anterior, continua a ter nos autores uma importante bússola. Viaja pelo trabalho de poetisas como Safo (A lua baixou, Sentidos divididos e Eros) ou Hélia Correia (A Tentação, A Terceira Miséria e Indignação), que nos levam a Friedrich Hölderlin (O Arquipélago) a um encontro com Ludwig van Beethoven
e à redescoberta do coro de Eurípides, (Orestes). Recuando ainda mais no tempo e no espaço, faz-se uma passagem pelo porto Sírio de Ugarit, 3500 anos atrás, para ouvir o Hino Hurrita a Nikkal, que por um lado, em conjunto com Acordai!, de José Gomes Ferreira e Fernando Lopes Graça se fez canção de embalar meninos e acordar adultos, e por outro, deu em lamento pela tragédia contemporânea dos refugiados, tantos deles daquela região.

Aporta-se nas míticas ou imaginárias ilhas de Ítaca, Utopia ou Terra do Nunca, abraçando o seu simbolismo de forma muito própria e contemporânea e, do outro lado do mar, atravessando os Pilares de Hércules (Estreito de Gibraltar, chega-se aos arquipélagos atlânticos que fazem a Macaronésia (Açores e Madeira, Canárias
e Cabo Verde). 
Com um feitiço lançado na taverna do porto, bebemos no fado e no rebético histórias de viagens sem regresso como as contadas por João de Deus, Mitsakis e Tsitsanis. E quando Fernando Pessoa chega com as suas visões de viagem e de passagem, a criar novos sentidos e a ganhar novas dimensões, firma-se o chão de José Saramago e de Giorgos Andreou, para rematar com alegria as voltas todas das canções de migração, esse nostálgico e perpétuo ‘nostos’, imbuído de saudade, que também liga Grécia, Portugal e Galiza, Cabo Verde e América Latina.

E nesta viagem de regresso a casa, podem ouvir-se as ondas do mar a contar contos, tanto num abraço entre a poesia galaico portuguesa de Martín Codax e a música de Panagiotis Tountas, como numa bulería muito peculiar, um final de festa, em que toda a gente está convidada a cantar e a dançar: gregos e portugueses, espanhóis e africanos, adultos e crianças – e quantos mais se quiserem juntar…

Amélia Muge e Michales Loukovikas”

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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