Categorias
Billets

Património, inovação e coesão social (V)

O ato patrimonial, que já detalhamos num outro postal[1] é um apelo à ação sobre a pretexto do património. Uma ação que não tem como objetivo referenciar objetos ou situações que estão presentes na vida da cidade, seja como vestígios do passado, seja como nostalgia duma “busca do “tempo perdido”[2]. O ato patrimonial usa essas referencias como matéria prima para a sua ação. Coleta-as a partir dos participantes que mobiliza e constrói com eles uma ação. Por isso é uma ato.

Muito se escreve sobre o património como recurso no espaço e no tempo. Pouco se tem escrito sobre o ato patrimonial como recurso para a educação e cidadania. Temos vindo a defender que a educação patrimonial concretiza a ação cidadã no âmbito das políticas para a diversidade cultural[3].

De forma mais prosaica, Oliveira Martins, no trabalho que apresenta o “Apelo de Berlim” e que acima referenciamos trabalha o património como “uma ponte entre o passado e o futuro, um processo contínuo de criatividade e inovação, que assenta as suas raízes na evolução histórica e suplanta-a em nome de uma cultura viva e de uma cidadania ativa e responsável[4]. Estamos de acordo com o princípio dialético da busca das tensões históricas como processo de superação. Um processo onde podemos influir como atores.

No entanto, Oliveira Martins, e aqui distanciamo-nos do autor, refere a relevância do Património cultural para aquilo que é hoje a narrativa hegemónica sobre os “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, sugerindo de forma atabalhoada a sua relevância para “uma solida coesão social”, e para o trabalho sobre a os “bem-estar e qualidade de vida” apoiado numa ideia de “harmonia e beleza para o nosso meio ambiente, humano e natural[5]. Não que estejamos em desacordo com os princípios da argumentação. O relevante nesta argumentação é que ele propõe de seguida a ultrapassagem das declarações de princípios para avançar na construção de valores com base na diversidade. No entanto, esses valores (culturais) ainda são “pertenças sentidas por todos” que podem ser locais, regionais, nacionais (ou universais diríamos nós em linha com a inclusão da referencias aos 70 da Declaração Universal dos Direitos Humanos). Segundo Oliveira Martins, a sua preservação depende do reconhecimento da diferença em relação ao outro.

A fragilidade desta argumentação está em que, mais uma vez o reconhecimento da diferença é visto como a essência, quando quanto a nós, o reconhecimento da diferença é o que permite avançar para a reconstrução, ou hibridação, ou mestiçagem, que é uma categoria nova. A questão não está apenas em criar novo e eliminar o antigo. É criar condições para que todos convivam, sendo que tem que haver a consciência do que aquilo que é novo, novidade ou inovação, tenha espaço para evoluir.

É certo que na sua análise da cultura histórica usa a argumentação de que o encerramento da cultura em si mesmo é um processo de auto-aniquilamento, o que não é em si demonstrável. Estamos de acordo de como diz que a “prevalência da hostilidade sobre a hospitalidade gera consequências dramáticas, que levam a conflitos desregulados, guerras sangrentas e à trágica espiral da violência[6], e que a sua solução exige um equilíbrio entre o uno e o diverso, entre tradição e modernidade, liberdade e igualdade. Falta-lho no entanto, na sua solução uma dimensão que é igualmente pertença da teoria da dignidade humana que é a solidariedade ou fraternidade.

No nosso entender os desafios da agenda pela Dignidade Humana estão longe de ser enunciados pelos princípios e é necessário integrar a igualdade com a diferença, a liberdade com a justiça social, e assegurar a disponibilidade de recursos para uma vida decente. O apelo à ação concretiza essa agenda. A ação inovadora que produz coesão social, é a ação que permite a diversidade cultural e a economia solidária.


[1] https://globaleduca.hypotheses.org/522

[2] Referencia à monumental obra de Marcel Proust (2003), “Em busca do Tempo Perdido” Lisboa, Relógio d’Água, onde em 7 volumes se trabalha sobre a poética do tempo.

[3] Cadernos de Educação Patrimonial nº 1 – (2018). No prelo

[4] Guilherme de Oliveira Martins. In http://www.e-cultura.sapo.pt/artigo/23188

[5] Ib idem

[6] Op cit

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.