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O apelo para o ato patrimonial (IV)

No já citado artigo de Oliveira Martins sobre o “Apelo de Berlim para a Ação” escreve-se que este “constitui um importante desafio para governos, instituições da sociedade civil e cidadãos, organizações internacionais e supranacionais, no sentido de considerar o património cultural como fator de superação do vazio de valores éticos, da indiferença, do medo dos outros – no sentido de uma “cultura de paz”, suscetível de pôr a tónica num culto comum da herança e da memória, do respeito mútuo e de uma verdadeira partilha de responsabilidades” [1]

O apelo para um ato patrimonial é hoje uma questão de sobrevivência para a Europa e para o seu projeto de União. Uma unidade feita de diferentes culturas e diferentes nações que no passado se confrontaram em busca duma hegemonia, nunca alcançada. Várias foram as hegemonias e os Império, e vários foram as suas dissoluções. O Mundo antigo não nos dá indicações precisas dum Império. O avanço do neolítico, com os movimentos migratórios da Ásia de povos portadores da tecnologia do fogo poderá ter-se confrontado com hominídeos mias arcaicos, levando à dominação do homo sapiens. Não há notícias de Impérios. Chamamos-lhe cultura. Culturas urbanas, culturas do bronze, do ferro, das cerâmicas. Alguns nomes mitológicos, celtas, iberos, fenícios dão algumas aproximações aquilo que no século XIX alimentará o mito nacional.

O primeiro Império europeu (e ainda assim euro-asiático) será o Império Romano. No século V cairá em forma de reinos Bárbaros, naquilo que em tempo se chamou as “longas trevas medievais”. Embora a oriente Constantinopla se tenham mantido como Império. Na medievalidade ressurge o Sacro Império Romano-Germanico pela mão de Carlos Magno. Um Império com duas cabeças (a sagrada em Roma e a profana em Poitiers). Na Península Ibérica esboça-se um Império Leonês e Castelhano, tornado Espanhol com a abertura do Novo Mundo. Ainda no século seculo XVI será o Império onde o sol nunca se põe. Desfizeram-se. O dos francos em reinos e os Ibéricos na decadência inquisitorial.

Guerra sucessivas, entre poderes e religiões atravessaram a europa. No século XIX, em França ressurge a vontade Imperial pela mão de Napoleão. No século XX na Alemanha, por um cabo-de-guerra austríaco que acaba no genocídio de judeus, ciganos e homossexuais, e vários milhões de solados.

É contra esta barbárie imperial que a Europa procura ser alternativa. Encontrar um denominador comum para as suas diferenças. Uma europa da diversidade cultural. Uma das ferramentas da construção dessa diversidade é pegar naquilo que somos, nos resultados dessas nossas histórias e encontramos um ponto comum contemporâneo. O património serve para isso. A educação patrimonial tem que ser o exercício de reconhecimento da diferença para crescermos juntos. O património como Encontro. Não se trata de olhar para objetos do passado, mas para os objetos que temos no nosso presente, para os usarmos nas nossas vidas. E isso só é possível se agirmos. Se executarmos um Ato Patrimonial


[1] Guilherme de Oliveira Martins. In http://www.e-cultura.sapo.pt/artigo/23188

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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