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A Cidade de Robert Park e a pesquisa sobre comunidades urbanas sustentáveis

A Escola de Sociologia de Chicago tem no trabalho de Robert Park “A Cidade: sugestões sobre o comportamento humano no ambiente urbano”, publicado em artigo em 1915, e posteriormente em livro, em parceria com Ernest Burgess[1] uma obra seminal da sociologia urbana. Os problemas então enunciados l procuram descrever os modos de vida urbana nas cidades e abordam as questões da participação pública[2].

Mais de metade da população mundial vive hoje em espaços urbanos. Os Estudos Urbanos e a questão das Cidades Sustentáveis tornam-se questões relevantes para a produção de conhecimento nas ciências sociais. A museologia social e a pesquisa sobre as comunidades urbanas sustentáveis não podem deixar de olhar para a relevância dos fenómenos urbanos, na medida em que eles são hoje os contextos dominantes dos processos museais e culturais.

Os fenómenos urbanos integram na atualidade não só a questão da relação entre os grupos sociais e as suas formas de organização no espaço, mas também a necessidade de considerar da dimensão da sustentabilidade ambiental e económica desses espaços. Tratam-se portanto de espaços e sociedades em contante mudança, que envolvem processos complexos, que implicam metodologias de análise de processos de mudanças, ao invés de regularidades que o modelo urbano da escola de Chicago procurava, e para o qual, apesar de ter enunciado várias questões não conseguiu resolver de forma satisfatória.

O desenvolvimento estrutural das cidades e os fenómenos da urbanidade – que se podem traduzir pela “experiencia urbana”[3] envolvem novos e dinâmicos processos de uso e vivências do espaço urbano, publico e provado, o que se traduz pela emergência de novos atores e interesses, dando origem a novos poderes e processos de conflito. Processos que se desenvolvem em contexto local, por pressão das comunidades locais e pelos processos de globalização, que acelerem as dinâmicas demográficas e migratórias. Um conjunto de questões que se traduzem por questões epistemológicas novas e pela necessidade de novas agendas de pesquisa.

A produção de conhecimento museológico em contexto urbano implica a inclusão na agenda pesquisa das novas dinâmicas societárias, das formas de apropriação do espaço e das suas formas de representação e legitimação. Essa nova situação exige uma maior ligação dos processos de investigação da academia com processos urbanos contemporâneos. Nele, por exemplo a questão da investigação participada, ganha uma maior relevância empírica, bem como todos os instrumentos metodológicos que se orientam para a análise da mudança, ao invés das regularidades, como as metodologias clássicas procuram capturar. A investigação museológica em contexto urbano assume-se como uma reflexão sobre a complexidade através de metodologias participativas, nas quais é relevante estar atento Às questões da reflexividade do ator da pesquisa. Se a investigação urbana não dispensava o conhecimento do espaço e da sociedade, a atual investigação museológica em contexto urbano não dispensa a produção de conhecimento sobre os atores da pesquisa, o que permite observar que conhecimento é gerado, como e porquê foi produzido e qual a sua relevância?

A questão epistemológica de como o conhecimento (museológico) é gerado envolve hoje as questões de interdisciplinaridade. A questão de interdisciplinaridade, no sentido em que é proposto por Edgar Morin[4] em que se procura um conhecimento do todo a partir das suas diferentes partes nos seus diferentes olhares. E nesta diversidade de olhares é necessário integrar os diferentes saberes e as diferentes formas de saber como propomos nas “epistemologias meridionais”[5] Integrando não só novos problemas como também novos locus de análise, mas também práticas de pesquisa participadas e envolvidas em processos de construção da justiça cognitiva.

A pesquisa em museologia social a partir de comunidades urbanas sustentáveis investigação enfrenta alguns desafios epistemológicos que se implicam uma reflexão sobre os modos de produção de conhecimento. E são desafios que se colocam em diferentes níveis epistémicos:

Num nível empírico, pela ultrapassagem na clivagem entre estudos sobre a cultura e natureza, entre tradição ou modernidade, urbano versus rural. Existe uma diferença na produção de conhecimento entre cultura e natureza, ou continuaremos a considerar que a natureza evolui de forma diferenciada da sociedade, sem que uma interfira com a outra. Continuamos a distinguir que a manutenção da tradição é uma alternativa à modernidade, ou assumimos definitivamente que é necessária uma inovação da tradição? Continuamos a pensar que o mundo urbano é diferente do mundo rural num contexto de globalização? A proposta da neurociência social, de trabalhar o eu e o outro, a relação entre si e com a natureza é um campo de pesquisa a prosseguir. [6]

Ao nível da conceitualização, implica repensar as relações escalares entre o local e o global e a interdependência entre os espaços de representação no contexto urbano. Esse exercício implica repensar as práticas de investigação a repensar a produção de subjetividades, a partir da poética da intersubjetividade. Implica pensar como produzimos conhecimento, para quem produzimos e como produzimos conhecimento museológico. A questão da formação de conceitos implica uma investigação a partir das questões relevantes presentas nas comunidades urbanas e não a partir das agendas científicas das universidades.

Por consequência desta necessidade de formação de conceitos operacionais com base na formulação dos problemas locais relevantes, levantam-se questões políticas de participação e da ética da pesquisas.

Se pensarmos a cidade como um campo de complexidade, um espaço e tempo onde se cruzam diferentes dinâmicas e processos, entre os quais se encontram as narrativas simbólica e de legitimação, que são expressão das tensões do poder nas suas diferentes expressões nesse locus, podemos facilmente entender o poder como algo fluido, em permanente recomposição. Nesse sentido sendo o conhecimento uma expressão do poder, a tensão entre conhecimentos rivais dá origem a narrativas da diversidade. A cidade é um espaço de produção de diversidade e os processos museológicos são lugares de produção de narrativas sobre essa diversidade, construído de forma participada com os diferentes atores, sejam eles os cidadãos dos bairros, das comunidades locais ou no espaço urbano como um todo Esta questão implica pensar que forma a produção de conhecimento museológico influencia ou não as políticas urbanas.

[1] Robert E. Park, Ernest W. Burgess, University of Chicago Press, 2012 – 250 p.

https://books.google.pt/books/about/The_City.html?id=eQqqAAAAQBAJ&redir_esc=y

O Livro retoma a pesquisa de Robert Park em Chicago sendo um dos textos fundadores da Escola de Sociologia Urbana de Chicago. O artigo publicado em 1915 é o primeiro capítulo do livro de 1915

[2] A Escola de Sociologia de Chicago apresenta neste livro aquilo que é uma dos modelos urbanos mais relevantes do século XX. A teoria central do livro é uma analogia entre o ambiente urbano e natural, em que ambos são resultados de competições entre os atores. Na cidade, as diferentes força e interesses defrontam-se pelo acesso aos recursos. Dessa competição resulta que os grupos tendem a grupar-se em zonas com características de recursos semelhantes. Este consumo de espaço urbano com base em recursos conduz a uma diferenciação espacial, que tem por base um conjunto ou zonamento por funções. A diferenciação do espaço por funções, um modelo de modernidade urbana, leva a pensar a centralidade como espaço. O núcleo urbano é considerado o espaço nobre da cidade, espaço para realização de trocas e desenvolvimento da vida social. O modelo desenvolve-se em zonas concêntricas em função do valor do espaço e da capacidade económica dos diferentes grupos sociais. O modelo procura olhar para o espaço como processo de criação de valor. Ao mesmo tempo, as marginalidades do modelo explicam as sociedades marginais e violentas dentro da cidade, que naturalmente ocupam os territórios de menor valor urbano.

A obra de Park e Brugess tem a virtude e olhar a cidade como um sistema, onde as diferentes partes se organizam em funções urbanas, com o centro a assumir um papel ordenador e difusor. Por outro lado, o espaço urbano é influenciado pelas pessoas (pelas subjetividades individuais, das suas escolhas e interações) que explicam uma condição urbana geral, como as estruturas sociais que se relacionam com estruturas espácias da facilitam trocas ordenadas ou violentas. O modelo é contudo algo funcionalista, ao partir do princípio de que há uma evolução linear entre a desordem dos grupos deslocados e a criação e a sua modernização por via da autoridade municipal. Assume uma visão algo naturalista da cidades, onde a virtude do mercado conduziria a uma cidade perfeita. A crise dos anos 30 introduz a severa crítica a este modelo, que será redescoberto nos anos oitenta, como exemplo de modelo urbano em áreas decadentes.

[3] Usamos esta expressão para relvar a questão das identidades e os sentimentos de pertença aos territórios. Nos tempos contemporâneo cada sujeito pertença a territórios culturais distinto. As cidades e os bairros homogéneos são hoje atravessados por dinâmicas de transformação que alteram os seus processos identitários.

[4] Morin, Edgar (2008). Introdução ao Pensamento Complexo, Almada, Instituto Piaget

[5] Leite, Pedro Pereira (2017). Epistemologias Meridionais: Museologia, Urbanismo e Direitos Humanos, Informal Museology Studies, #18 verão 2017.

[6] A integração da mente, do corpo e do ambiente nas representações simbólicas de legitimação e nas estruturas de poder

Por Pedro Pereira Leite

Dinamizador do Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Museu Afro Digital - Portugal.

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